Desafios e Perspectivas da Saúde Bucal entre os Povos Indígenas no Brasil
A importância da proteção territorial e da valorização cultural para a promoção da saúde bucal nas comunidades indígenas
O Brasil é um país de proporções continentais e tem uma população diversa em todo o território nacional. Dados do Censo de 2022 indicam que temos 1,7 milhão de indígenas no país, que vivem em 14% das terras. Do total de área ocupada, 98% concentra-se na Amazônia Legal. Os povos indígenas são assistidos pelo Subsistema de Atenção à Saúde Indígena, integrado ao SUS por meio da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas.
A população indígena com maior contato externo vem sofrendo com as alterações nos padrões alimentares, o que causou drásticas transformações na saúde desse grupo. A mortalidade proporcional por idade é mais desfavorável em relação ao restante da população brasileira, ou seja, os indígenas morrem mais cedo.
Na saúde bucal, a população geral passa por um declínio de casos de cárie em crianças e adolescentes em idade escolar, acima de 6 anos. Em contrapartida, certas populações indígenas enfrentam um processo de aumento significativo da experiência de cárie dentária entre uma geração e outra da mesma etnia.
A proteção do território é o que garante a proteção contra as doenças e a preservação das formas de vida e de existência harmônica com a natureza. Essa proteção contribui para a garantia de uma dieta livre de produtos industrializados com excesso de gordura e açúcar, que prejudicam gravemente as condições bucais dos indígenas.
As ações de saúde bucal promovidas pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) colaboram para controlar o dano decorrente das lesões de cárie, mas não conseguem deter a perda dentária precoce.
Nos programas de proteção à saúde bucal dos indígenas existem demandas urgentes que precisam ser enfatizadas, como a prevenção da cárie. A participação indígena nas decisões é necessária para o fortalecimento das ações, valorizando seus saberes tradicionais e incorporando abordagens interculturais que respeitam seus modos de vida. Iniciativas assim podem contribuir para a redução da desigualdade na ocorrência de doenças entre indígenas e não-indígenas.
É necessário treinar os agentes de saúde indígena e manter um programa de escovação dental diária com creme dental fluoretado nos distritos sanitários. A distribuição de produtos de higiene bucal deve ser de qualidade e recomendada por cirurgiões-dentistas, como pastas fluoretadas e escovas de dentes com cerdas adequadas.
Os povos indígenas enfrentam muitas ameaças ligadas à mineração e garimpo legal, à invasão de terras, desmatamento e queimadas, entre outras atividades que destroem o meio ambiente e prejudicam a subsistência e a saúde das comunidades. Essas situações afetam a saúde bucal, porque reduzem a disponibilidade de alimentos “in natura”, gerando alterações nos costumes da etnia que podem levar ao aumento da frequência diária de ingestão de carboidratos e produtos ultraprocessados, aumentando o risco de cárie.
Os profissionais que prestam cuidados precisam ter comprometimento social e ético-político para se adaptar e lidar com as condições adversas e recursos limitados da população. É indispensável respeitar a autonomia dos indígenas e garantir o direito ao acesso e esclarecimento das informações, para que tudo seja feito com consentimento durante as ações propostas.
Além disso, os profissionais de Odontologia devem conhecer técnicas adequadas para lidar com os indígenas, trabalhando em equipes multidisciplinares nos Distritos Especiais de Saúde Indígena, considerando a diversidade linguística e cultural — são mais de 270 idiomas falados por mais de 300 etnias, cada uma com suas especificidades. A presença de intérpretes e tradutores é fundamental para superar barreiras de comunicação.
Os profissionais de saúde bucal podem aprender os principais termos usados pelas etnias para problemas de saúde bucal, alimentos e partes do corpo, enquanto ensinam os nomes adotados na língua portuguesa para doenças bucais e produtos de higiene, fortalecendo o diálogo e a eficácia das ações de promoção da saúde.
A saúde bucal dos povos indígenas é um reflexo das condições sociais, ambientais e culturais em que vivem. Proteger seus territórios, respeitar suas tradições e promover ações interculturais são passos essenciais para garantir o direito à saúde e reduzir as desigualdades que persistem no país.
Por Dr. Paulo Frazão
Presidente da Câmara Técnica de Saúde Coletiva do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), cirurgião-dentista
Artigo de opinião



