Trabalho remoto em 2026: as tendências que vão transformar o mercado
Flexibilidade, gestão por dados e saúde mental são os pilares do futuro do trabalho híbrido e remoto
O ano de 2026 promete consolidar uma divisão clara no mercado de trabalho: de um lado, empresas que apostam no retorno obrigatório ao escritório; do outro, organizações que enxergam na flexibilidade um benefício. Em meio a anúncios de gigantes como Nubank, que exigirá presença no escritório duas vezes por semana a partir de 2026, especialistas alertam que as tendências globais apontam em direção oposta.
Segundo o CEO da Impulso, Sylvestre Mergulhão, “2026 será o ano da escolha definitiva. As empresas terão que decidir se constroem culturas baseadas em confiança e resultados, ou se retornam para modelos de controle que já se provaram menos eficazes. Os dados estão disponíveis e são fidedignos: a flexibilidade transformou-se em uma estratégia empresarial, e não em um mero benefício.”
A declaração encontra respaldo em números expressivos. Pesquisa da Gallup revela que 57% dos trabalhadores híbridos estão mais propensos a dizer que a redução do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é o maior desafio, enquanto dados da Hrstacks mostram que 90% dos trabalhadores remotos em todo o mundo se consideram tão ou mais produtivos do que seriam no escritório.
O paradoxo do retorno presencial
Movimentos recentes de empresas como Deloitte, Google, TCS e Lloyds Banking Group, que anunciaram retorno ao presencial atrelando bônus à presença física, contrastam com os indicadores de performance. O próprio Nubank, por exemplo, registrou no segundo trimestre de 2025 lucro líquido de US$ 637 milhões e ROE anualizado de 28% – tudo isso com equipes operando majoritariamente de forma distribuída.
“Há uma linha tênue entre buscar colaboração e tentar retomar controle. É comum ver líderes que confundem proximidade física com alinhamento. Mas cultura forte não depende de prédio. Depende de clareza, confiança e responsabilidade”, analisa Mergulhão.
Segundo um levantamento da McKinsey, 4 em cada 5 funcionários que trabalharam em modelos híbridos nos últimos 2 anos querem mantê-los. No Brasil, o estudo conjunto da Universidade de São Paulo e FIA Business School aponta que 94% dos profissionais em trabalho remoto relatam melhoria na qualidade de vida.
Principais tendências do trabalho remoto para 2026
1. Gestão orientada por dados substituirá supervisão presencial
O relatório “Future of Work 2024” da McKinsey indica que organizações que migraram para avaliações baseadas em resultados registraram aumento de 27% no engajamento dos funcionários e 24% em eficiência operacional. “A transição para o trabalho remoto força as empresas a evoluírem seus modelos de gestão. Quando não podemos mais contar com a supervisão visual direta, precisamos desenvolver métricas objetivas, KPIs claros e processos transparentes”, explica Sylvestre.
2. Squads sob demanda ganharão espaço sobre equipes fixas
A tendência é de equipes multidisciplinares temporárias, formadas para projetos específicos. “Em vez de contratar para alimentar a dependência da equipe, lideranças maduras focam em especialistas sob demanda que podem ser integrados em poucos dias, enquanto processos tradicionais de onboarding podem levar até 6 meses”, destaca Mergulhão.
3. Comunicação assíncrona redefinirá a produtividade
À medida que o trabalho remoto se consolida, a comunicação assíncrona — aquela que não exige respostas imediatas — passa a ser pilar estratégico para empresas eficientes. Ferramentas como Loom, Notion, Slack e plataformas de gestão de projetos ganham protagonismo ao permitir que times trabalhem em ritmos diferentes, sem depender de reuniões constantes ou interrupções contínuas.
4. Saúde mental se consolidará como indicador de performance
A saúde mental passou a ocupar espaço central nas estratégias de produtividade das empresas. O relatório do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS, 2023) aponta que 76% dos trabalhadores relataram ao menos um sintoma de problema de saúde mental, enquanto 84% atribuíram esses impactos diretamente a condições de trabalho mal estruturadas, como excesso de demandas, falta de autonomia e comunicação pouco eficiente.
Com o avanço dos modelos remoto e híbrido, cresce o entendimento de que ambientes saudáveis não só reduzem burnout e estresse crônico, mas também impulsionam engajamento, retenção e eficiência operacional. “Quando a organização mede saúde mental como um indicador de performance, ela entende que colaboradores equilibrados entregam mais, melhor e por mais tempo. Além de focar no bem-estar individual, isso contribui para a sustentabilidade organizacional a longo prazo”, afirma o CEO da Impulso.
5. Acesso global a talentos
O modelo remoto continuará democratizando oportunidades e ampliando horizontes de recrutamento. “Não estamos mais limitados a talentos que moram a uma hora do escritório. Isso permite que empresas acessem profissionais altamente especializados em qualquer parte do país ou do mundo, enquanto cidades menores se beneficiam da retenção de seus talentos locais”, comenta Mergulhão.
6. Flexibilidade como estratégia de retenção
Um levantamento da Harvard Business School indica que 40% dos profissionais aceitariam redução salarial de pelo menos 5% para manter o trabalho remoto. Segundo o relatório “State of Remote Work 2023” da Buffer, 98% dos trabalhadores remotos gostariam de continuar nesse modelo para o resto da carreira.
“A flexibilidade consolidou um novo padrão de expectativa profissional. Quando bem estruturada, ela fortalece engajamento, amplia a permanência dos talentos e cria ambientes mais sustentáveis para empresas e colaboradores”, finaliza Sylvestre Mergulhão.
Por Sylvestre Mergulhão
CEO da Impulso, People Tech especializada em produtividade e reestruturação de equipes; defensor de estruturas ágeis e adaptáveis; especialista em gestão baseada em dados, squads sob demanda e saúde mental organizacional
Artigo de opinião



