Games e férias: como transformar o videogame em um espaço de convivência familiar
A tecnologia pode fortalecer os laços entre pais e filhos quando usada com mediação e propósito durante as férias escolares
Quem acompanha meu trabalho sabe que sou um entusiasta da tecnologia, mas também um observador crítico. Recentemente, escrevi sobre como plataformas populares, como o Roblox e o Discord, podem se tornar ambientes de risco ou de exposição indevida quando não há mediação adulta. No entanto, com a chegada das férias escolares, quero propor uma mudança de perspectiva: o problema não é a tela em si, mas o abandono das crianças diante dela.
Muitas vezes, por cansaço ou falta de tempo, permitimos que os jovens joguem de forma isolada, transformando o videogame em uma “babá eletrônica”. O convite que faço agora é para inverter essa lógica e enxergar os jogos como uma ponte de convivência, na qual o adulto deixa de ser apenas um fiscal e passa a atuar como um parceiro de jornada.
Ao contrário do senso comum, os jogos eletrônicos não são apenas distrações vazias. Quando utilizados de forma responsável, com limites claros e acompanhamento, eles oferecem benefícios reais, jovens e adultos.
O estudo publicado na revista Nature Human Behaviour, que analisou mais de 100 mil pessoas, indica que o uso de consoles de videogame pode contribuir para a redução do estresse psicológico e aumentar a satisfação com a vida. Outra pesquisa da Universidade Católica Portuguesa aponta que determinados jogos, quando orientados, podem auxiliar no controle de crises de ansiedade, funcionando como complemento às abordagens convencionais.
Já levantamentos acadêmicos, conduzidos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), demonstram que jogos digitais podem melhorar significativamente a memória, a atenção e a agilidade mental, com impactos positivos inclusive entre idosos.
Para quem quer colocar essa ideia em prática, especialmente em época de férias escolares, fiz a seleção de cinco jogos que priorizam a segurança, a colaboração e, acima de tudo, a diversão compartilhada. A maioria deles é gratuita. Conheça:
Sky: Children of the Light (celular, consoles e PC) – Gratuito
Um jogo de uma beleza visual rara, focado na generosidade. O objetivo é ajudar espíritos a voltarem para casa. Não há violência; a interação principal é doar luz e voar de mãos dadas com outros jogadores. É perfeito para ensinar empatia e calma.
Stumble Guys (celular e consoles) – Gratuito
Funciona como uma gincana de TV colorida e engraçada. É ideal para partidas rápidas onde o foco é o riso. É uma ótima ferramenta para ensinar as crianças a lidarem com a frustração da derrota e a persistirem na tentativa seguinte.
Pokémon GO (celular) – Gratuito
Este jogo tem o mérito de tirar a família do sofá. Ele utiliza o GPS para que você encontre criaturas enquanto caminha pelo seu bairro ou parque. É uma excelente desculpa para ocupar espaços públicos e transformar um passeio em uma expedição científica.
KartRider: Drift (PC, celular e consoles) – Gratuito
Corridas de carrinhos que reúnem todas as idades. É fácil de aprender e permite que pais e filhos compitam de forma saudável. Funciona como uma versão moderna das noites de jogos de tabuleiro, estimulando reflexos e coordenação.
It Takes Two (consoles e PC) – Pago
Embora não seja gratuito, este jogo é o padrão ouro da cooperação. Ele foi desenhado especificamente para ser jogado por duas pessoas. A história fala sobre reconciliação e trabalho em equipe, exigindo que os jogadores conversem e planejem cada passo juntos.
O desafio está lançado. Que tal deixar o celular de lado por uma hora e entrar no mundo dos seus filhos? A recompensa não será um troféu virtual, mas a certeza de que você está presente na construção do futuro deles.
Vamos jogar juntos?
Por Márcio Filho
presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ), diretor executivo da GF CORP, especialista em Games e Sociedade, com mais de duas décadas de experiência e engajamento social em políticas públicas para o setor de jogos
Artigo de opinião



