Quando o lobo deixa de ser lobo

A perigosa mania de justificar o mal — até nas histórias infantis

Enquanto pintava um desenho da Chapeuzinho Vermelho com minha filha, Nina, algo simples — e profundo — chamou atenção: o lobo já não era mais só o lobo. Na releitura moderna da história, ele precisava de uma explicação. Um trauma. Um motivo aceitável para querer devorar a vovozinha.

E ali, entre lápis de cor e silêncio atento, ficou clara uma pergunta incômoda: desde quando o mal precisa de desculpa para existir?

O problema não é explicar. É absolver.

Durante séculos, os contos de fadas cumpriram uma função essencial: apresentar o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse.
O perigo tinha rosto. O erro tinha consequência. O mal tinha nome.

Na versão clássica registrada pelos Irmãos Grimm, o lobo não pede compreensão — ele representa ameaça. E isso não era crueldade narrativa, mas pedagogia simbólica. A criança aprendia, desde cedo, que existem forças no mundo que não negociam valores.

Hoje, parece haver um constrangimento coletivo em afirmar isso.

Quando tudo vira contexto, nada vira responsabilidade

Vivemos a era do background do vilão.
Nada é simplesmente errado — tudo é “resultado de um processo”.
Nada é escolha — tudo é “construção social”.
Nada é limite — tudo é “ponto de vista”.

O psicanalista Bruno Bettelheim, em A Psicanálise dos Contos de Fadas, defendia exatamente o oposto do que vemos hoje:

a criança precisa de símbolos claros de bem e mal para organizar emocionalmente o mundo.

Quando retiramos essa clareza, não estamos sendo mais empáticos — estamos sendo menos honestos.

O jeitinho como filosofia moral

No Brasil, isso ganha um tempero conhecido: o jeitinho.
A ideia de que regras são flexíveis, desde que a justificativa seja convincente.
De que a intenção pesa mais que o ato.
De que o erro pode ser “entendido” — e, portanto, perdoado — antes mesmo de ser assumido.

O resultado? Um mundo onde o lobo sempre tem uma boa razão.
E a vovozinha… bem, que tivesse se protegido melhor.

Crianças não precisam de vilões fofos

Há algo que esquecemos: crianças entendem o mundo melhor quando ele tem contornos.
Elas não precisam de vilões humanizados demais. Precisam de referências.

Como lembra o escritor C.S. Lewis,

“a tentativa de criar um mundo sem certo e errado não elimina o mal — apenas o torna invisível.”

E o mal invisível é sempre o mais perigoso.

Talvez o problema não esteja nos contos…

…mas em nós.

Talvez estejamos usando as histórias para justificar nossas próprias concessões morais.
Talvez explicar demais o lobo seja uma forma elegante de não encarar limites, escolhas e consequências.

Nem todo lobo precisa de redenção.
Alguns só precisam ser reconhecidos como o que são.

E ensinar isso — com delicadeza, mas com firmeza — talvez seja um dos maiores atos de cuidado que podemos oferecer às próximas gerações.


Afina Menina
Porque maturidade emocional também começa nas histórias que contamos — e nas verdades que não temos medo de dizer.

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