Desemprego em 5,6%: o desafio oculto da escassez de mão de obra qualificada no Brasil

Enquanto o desemprego atinge a mínima histórica, empresas enfrentam um apagão de competências que exige uma nova abordagem para retenção e desenvolvimento de talentos em 2026

O Brasil encerra 2025 com 5,6% de desemprego, segundo a PNAD Contínua do IBGE — o menor índice já registrado. No vocabulário econômico, o cenário é considerado “pleno emprego”. Mas, para quem acompanha o mercado por dentro, essa leitura pode produzir um falso conforto.

A fotografia macro mostra um país com vagas. O raio-X interno revela algo diferente: falta gente qualificada. É uma crise de competência. Segundo as projeções, 2026 deve ser marcado pela escassez justamente em posições que sustentam o PIB.

O Sinduscon-SP estima alta de 2,7% na construção civil. Infraestrutura, energia, logística e agronegócio também devem puxar o crescimento. É onde estão as vacâncias reais: engenheiro civil, mestre de obras, eletrotécnico, técnico de automação. Com o ajuste das techs e do mercado financeiro, o eixo volta ao Brasil que produz: quem executa.

A renda média acima de R$ 3.500 redesenhou o poder de negociação entre empresas e força de trabalho. Em 2023, a empresa escolhia o profissional. Em 2026, o profissional escolhe a empresa — mas isso eleva a régua de entrega. O mercado procura o engenheiro que entende finanças, o gestor que domina dados. O especialista de nota única perde espaço para o generalista estratégico.

Para as organizações, a principal virada no próximo ano será reter. Repor um talento pode custar entre 9 e 12 salários. É nesse ponto que surge o conceito central: engenharia de gente.

Antes, engenharia era sobre máquina e processo. Agora, é sobre pessoas. Engenharia de gente nada mais é do que desenhar ambiente, incentivos e oportunidades para que alguém permaneça. Treinar técnica é possível; manter quem tem autonomia, comunicação, adaptabilidade e pensamento crítico é a parte difícil. É melhor ter cinco bons técnicos que aprendem rápido do que 10 que você perde em seis meses.

Na prática, para as empresas, o diagnóstico implica mudar o recrutamento. É hora de abandonar a busca pelo currículo perfeito e contratar por perfil, complementando lacunas técnicas depois. E criar condições para que as pessoas não atravessem a rua por R$ 500 a mais.

Para os profissionais, o quadro representa oportunidade. É o momento de negociar carreira, aumento ou mobilidade — sustentado por entrega real. Multidisciplinaridade em dados, finanças e gestão pode virar diferencial. E observar setores aquecidos, como infraestrutura, energia, agro e chão de fábrica, pode reorientar trajetórias para 2026.

V

Por Virgilio Marques dos Santos

sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, gestor de carreiras, PhD pela Unicamp, doutor, mestre e graduado em Engenharia Mecânica pela Unicamp, Master Black Belt pela Unicamp, autor do livro "Partiu Carreira", TEDx Speaker, ex-professor de cursos de pós-graduação na Unicamp e outras universidades, ex-gerente de processos e melhoria em empresa de bebidas, idealizador do Desafio Unicamp de Inovação Tecnológica

Artigo de opinião

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