Como apoiar a saúde emocional dos filhos nas transições escolares
Estratégias para pais enfrentarem os desafios da mudança de fase escolar e fortalecerem o bem-estar emocional das crianças e adolescentes
A passagem de uma etapa escolar para outra pode ser desafiadora para crianças, adolescentes e para as famílias. Cada transição desloca o eixo de aprendizagem e de responsabilidades da criança ou adolescente. Reconhecer os impactos emocionais e adaptar a rotina familiar faz toda a diferença para que a criança ou o adolescente se sinta apoiado, sem pressão excessiva.
O fim do brincar?
A entrada no Ensino Fundamental marca a troca do “brincar livre e exploratório” por uma rotina com maior sistematização, regras, horários e exigências escolares. Apesar de esperada, essa mudança de eixo pode gerar desconforto. Os pais devem estar atentos aos sinais de estresse ou regressão comportamental nas crianças, como choros frequentes ao ir ou chegar da escola, queixas somáticas (dor de barriga ou enjoo sem causa médica), alterações no sono ou no apetite, regressões comportamentais (uso de bico, chupeta ou fala infantilizada), irritabilidade ou resistência às atividades escolares.
Para auxiliar nesse processo, os pais devem focar na previsibilidade e no estímulo ao esforço. É possível construir autonomia por etapas, atribuindo pequenas responsabilidades para a criança, e criar rotinas claras para acordar, estudar, brincar e dormir, o que ajuda a desenvolver a autorregulação. É fundamental manter o brincar presente no dia a dia, pois a criança continua criança, mudou apenas a etapa. O amadurecimento é gradual. Para evitar a pressão excessiva, é importante elogiar o esforço, e não apenas o resultado, além de validar os sentimentos da criança, deixando claro que se entende o desconforto, mas que a mudança é necessária para o seu desenvolvimento.
Ensino Médio: adolescência, identidade e futuro
A passagem para o Ensino Médio coincide com o auge da adolescência, o que provoca um duplo desafio: crise de identidade, instabilidade emocional e pressão da escolha profissional. A insegurança é natural, e a preparação para a vida adulta exige um apoio com foco no acolhimento e na exploração de interesses.
Os pais devem acolher a instabilidade emocional e entender que a variação de humor não é falta de educação, mas um marcador do desenvolvimento socioemocional. É fundamental evitar comparações e minimizar o sofrimento do adolescente, evitando frases que desvalorizem seus sentimentos. Para o desenvolvimento do adolescente, é importante reforçar laços de pertencimento, incentivando a participação em grupos, seja de esportes, artes ou projetos, pois o jovem precisa pertencer para depois se reconhecer. Os pais podem ainda ajudar a explorar interesses e habilidades, facilitando o planejamento do futuro de forma realista e menos ansiosa.
Comunicação e diálogo são pontos-chave
A maneira como os pais se comunicam é determinante para promover a segurança da criança ou adolescente. Os erros de comunicação mais frequentes ao tentar preparar ou motivar os filhos são minimizar os sentimentos, o excesso de foco no desempenho (transformando notas em condição de afeto), comparações com irmãos ou colegas, disparar conselhos imediatos sem praticar a escuta ativa e transmitir a própria ansiedade adulta no discurso.
O diálogo que realmente promove a segurança e a abertura se baseia em perguntas abertas, escuta ativa e modelagem emocional, na qual os pais servem como modelo de como lidar com frustrações. Além disso, deve-se estimular o pensamento crítico e evitar dramatizações.
Quando buscar ajuda profissional
A rede de apoio em casa deve ser personalizada, reconhecendo que cada filho tem necessidades singulares. O que funciona para um pode não funcionar para o outro. É fundamental observar os padrões de comportamento de cada um, o nível de sensibilidade, o ritmo de aprendizagem e as inseguranças. A rotina deve ser ajustada à personalidade; por exemplo, crianças mais ansiosas precisam de mais previsibilidade, enquanto adolescentes introspectivos necessitam de espaços seguros para a fala, sem pressão. É importante que escola e família sejam parceiros ativos.
A ajuda especializada é indicada quando os sinais de sofrimento são persistentes, por mais de 4 a 6 semanas, ou quando a rotina familiar se torna insustentável. Recomenda-se buscar auxílio profissional em casos de: regressões acentuadas ou mudanças bruscas e duradouras no humor; queda significativa no rendimento escolar ou evitação extrema de atividades; sofrimento emocional evidente, como crises de choro, isolamento ou explosões de raiva frequentes; queixas físicas constantes sem causa médica; problemas de atenção, leitura ou escrita que dificultam o acompanhamento.
Nessas situações, o apoio de profissionais de psicopedagogia (para dificuldades de aprendizagem e transição), psicologia (para aspectos emocionais), terapia ocupacional (para autorregulação e rotina), neuropsicologia ou neurologia (para avaliações cognitivas ou indícios neurobiológicos) é fundamental. Em casos mais intensos, pode ser necessário o suporte de um psiquiatra.
Por Ana Clarisse Alencar Barbosa
Coordenadora do curso de Pedagogia da UNIASSELVI, professora
Artigo de opinião



