Brasil entre os maiores consumidores de antidepressivos: riscos da medicalização e caminhos para o reprocessamento emocional

O crescimento no uso de psicofármacos revela desafios na abordagem da saúde mental e destaca a importância de tratamentos que atuem na raiz do sofrimento emocional

O consumo de antidepressivos no Brasil cresceu de forma acelerada nos últimos anos e colocou o país no centro do debate global sobre medicalização. Levantamentos de mercado indicam que o país está entre as nações que mais compram antidepressivos no mundo, acompanhando tendências observadas nos Estados Unidos, Islândia, Austrália e Canadá.

De acordo com o psicólogo e pesquisador Jair Soares, doutorando em Psicologia pela Universidade de Flores (UFLO), na Argentina, e fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT), o aumento acompanha a alta nos diagnósticos de transtornos de ansiedade e depressão. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 9,3% da população brasileira convive com ansiedade, o maior índice global, e 5,8% apresentam algum grau de depressão, uma das taxas mais elevadas da América Latina.

Para ele, a expansão do uso de psicofármacos é multifatorial. “De um lado, há maior acesso à informação, disponibilidade de tratamentos e ampliação do debate público sobre saúde mental. De outro, especialistas alertam para o risco de uma relação desequilibrada entre sintomas e causas, na qual o medicamento passa a ocupar um lugar central antes mesmo da investigação emocional mais profunda”, alerta o especialista.

Muitas pessoas buscam o antidepressivo como primeira resposta ao sofrimento, e não como parte de um plano terapêutico integrado. O remédio é importante, mas não trata a origem da dor. Quando essa causa permanece ativa, a recaída costuma ser uma questão de tempo”, afirma Soares.

A normalização do uso de antidepressivos não ocorre apenas entre adultos com quadros clínicos estabelecidos. Pesquisas acadêmicas recentes e levantamentos nacionais têm registrado aumento expressivo no consumo entre adolescentes e jovens adultos. Parte desse fenômeno é alimentado por conteúdos superficiais sobre saúde mental nas redes sociais, especialmente no TikTok e no Instagram, onde vídeos explicativos ou relatos pessoais sobre medicamentos viralizam com facilidade. Isso cria, segundo especialistas, um ambiente no qual o remédio se torna uma resposta imediata a qualquer desconforto emocional, sem que se compreenda o contexto psicológico.

Além disso, fatores socioeconômicos contribuem para o aumento da prescrição. Pressões relacionadas ao trabalho, sobrecarga de cuidados, instabilidade financeira e a permanência de sintomas pós-pandemia ampliaram o número de indivíduos que buscam ajuda. Dados do Conselho Federal de Farmácia indicam que as vendas de psicotrópicos como antidepressivos, estabilizadores de humor e ansiolíticos vêm crescendo de forma consistente desde 2019, acompanhando a escalada dos diagnósticos de burnout, crises de ansiedade e distúrbios do sono.

No cotidiano, isso se traduz em trabalhadores que seguem produtivos, mas emocionalmente esgotados; adolescentes que oscilam entre superexposição digital e apatia; e adultos que acreditam estar “no controle” enquanto lidam com medo constante, irritabilidade ou sensação persistente de urgência interna. Em muitos casos, o medicamento reduz a intensidade do sintoma, permitindo que a rotina siga, mas não altera o gatilho que o alimenta.

Para Jair Soares, o ponto central da discussão é compreender o sintoma como parte de uma lógica emocional mais ampla. “O sintoma é um sinal do inconsciente. Ele mostra que existe uma experiência não elaborada, um registro interno que continua ativo. Se tratamos apenas do desconforto, mas não olhamos para o que o produz, criamos um ciclo no qual o alívio dura pouco e a dor retorna”, explica.

Segundo o pesquisador, muitos quadros persistentes de ansiedade, depressão ou pânico têm relação com experiências antigas que foram registradas pelo sistema emocional como ameaça ou abandono. Esses registros moldam o comportamento e a forma como o indivíduo interpreta o mundo, mesmo décadas depois. “A mente é eficiente em repetir padrões, não em encerrá-los. Por isso, quando só o sintoma é tratado, a causa segue operando”, afirma.

Nesse contexto, metodologias clínicas que atuam nas raízes do sofrimento ganham espaço. A Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), desenvolvida por Soares e aplicada por profissionais do IBFT, propõe acessar e reorganizar memórias emocionais que sustentam quadros sintomáticos. Diferentemente de abordagens centradas na fala, a TRG não exige que o paciente verbalize traumas ou reviva experiências de forma expositiva. O trabalho ocorre por meio de protocolos estruturados que atuam diretamente na forma como o sistema emocional registra determinados eventos.

A TRG vem sendo pesquisada na Universidade de Flores, onde Soares desenvolve tese relacionada ao método em pessoas com depressão e ansiedade. Segundo o psicólogo, os resultados preliminares têm indicado redução significativa de sintomas após o reprocessamento emocional. “Quando o registro que alimenta o sintoma é reorganizado, o corpo deixa de reagir como se estivesse diante de um perigo constante. O alívio não é apenas consciente; é neurológico”, explica.

Ele ressalta, porém, que a TRG não substitui o uso de medicamentos quando eles são necessários, mas pode reduzir a dependência de abordagens exclusivamente sintomáticas e diminuir a taxa de recaídas. “O debate não é sobre ser contra ou a favor de antidepressivos. A discussão é sobre não tratar apenas o que aparece na superfície”, afirma.

Especialistas orientam procurar avaliação psicológica ou psiquiátrica quando:
– o uso de antidepressivos se prolonga sem melhora estrutural;
– há dependência emocional do alívio imediato;
– os sintomas retornam após a suspensão;
– a função social, produtiva ou emocional está comprometida;
– há histórico de repetição de padrões emocionais ou crises recorrentes.

Segundo Soares, entender a origem do sofrimento é o ponto de virada para quadros persistentes. “Quando a causa emocional é trabalhada, o sintoma perde a função. A pergunta mais importante sempre será: ‘O que essa dor está tentando mostrar?’”, conclui.

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Por Jair Soares

Psicólogo e pesquisador, doutorando em Psicologia pela Universidade de Flores (UFLO), fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT)

Artigo de opinião

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