Inteligência Artificial no Diagnóstico e Prevenção do AVC: Avanços e Desafios no Brasil
Como a IA está revolucionando o atendimento emergencial e a prevenção do AVC, sem substituir o olhar clínico do neurologista
De janeiro a outubro deste ano, quase 65 mil pessoas morreram em decorrência do AVC no Brasil, o equivalente a uma vida perdida a cada seis minutos. Em 2024, foram registradas mais de 85 mil mortes pela doença, segundo dados do Portal da Transparência dos Cartórios de Registro Civil. Nesse contexto, a inteligência artificial (IA) tem se tornado uma ferramenta cada vez mais importante no diagnóstico de Acidente Vascular Cerebral (AVC), atuando ativamente na redução do tempo de atendimento emergencial.
A tecnologia pode acelerar o início do tratamento em 20 a 30 minutos em comparação ao fluxo tradicional, diferença que pode ser decisiva entre a recuperação com preservação funcional e sequelas graves.
No contexto do AVC, cada minuto conta muito. A inteligência artificial é uma ferramenta prática e valiosa porque ajuda a ganhar tempo nas fases iniciais, especialmente na rápida detecção de alterações nos exames de imagem, como tomografia ou ressonância, mesmo fora de horários de plantão ou sem especialistas presentes.
Na prática, a tecnologia de IA permite interpretação automática de exames de imagem em casos suspeitos de AVC, identificando com rapidez regiões de isquemia ou sangramento cerebral, delimitando a área lesionada e auxiliando na decisão de qual tratamento adotar. A etapa do atendimento em que a IA mais agrega valor é na triagem rápida da emergência. O alerta inicial e a interpretação da imagem são de extrema importância. É uma economia de tempo que faz toda a diferença na redução de sequelas no paciente.
Além do diagnóstico, a inteligência artificial já atua também na prevenção do AVC. A tecnologia consegue identificar pessoas com risco elevado mesmo antes de um evento, integrando múltiplas variáveis como exames cardíacos, histórico clínico, dados demográficos, estilo de vida e exames laboratoriais.
A força da inteligência artificial vem da capacidade de integrar muitas variáveis e identificar padrões sutis de risco que escapam à avaliação tradicional. Identificar fatores silenciosos, como fibrilação atrial, já é uma realidade.
Apesar dos avanços, é importante estar atento aos limites da tecnologia. A IA pode deixar passar sinais sutis nos exames, como isquemias muito precoces ou micro-hemorragias, gerando falsos negativos. Por outro lado, também pode super-identificar lesões, confundindo calcificações ou artefatos com eventos agudos, o que leva a interpretações errôneas e até exames desnecessários.
A inteligência artificial não avalia nível de consciência, exame neurológico evolutivo, comorbidades, tempo de sintomas ou uso de medicações. A decisão final deve continuar sendo médica. Talvez o mais perigoso seja o excesso de confiança tecnológica.
Os sistemas não substituem o profissional, mas auxiliam na interpretação clínica. A inteligência artificial veio para agregar, para ajudar, e não como substituta das decisões que devem continuar sendo tomadas por um profissional médico experiente.
Por Dra. Roussiane Gaioso
Neurologista cooperada da Unimed Goiânia – Cooperativa de Trabalho Médico
Artigo de opinião



