Fadiga Mental Digital: O Cansaço Invisível da Vida Conectada
Como o excesso de estímulos digitais está esgotando a mente e impactando a saúde emocional de jovens e adultos
Esquecer compromissos simples, perder o fio da conversa ou sentir a mente ‘lenta’ tem se tornado cada vez mais comum. Isso tem nome: fadiga mental digital. A superexposição às telas pode levar a um esgotamento psíquico que se manifesta em dificuldade de concentração, sensação de mente embotada e lapsos de memória no dia a dia.
Um estudo realizado pela Universidade de Utah revelou que esse quadro está associado ao aumento das queixas de memória entre adultos com menos de 40 anos. No levantamento, o número de pessoas que referiam algum tipo de queixa cognitiva passou de 5,3% para 7,4%, indicando um crescimento significativo desse sintoma.
Outros fatores estão relacionados, como: sono irregular, estresse crônico e má alimentação, condições frequentemente agravadas pelo uso prolongado e desregulado de dispositivos digitais, que prolongam o tempo de vigília, intensificam a sensação de alerta constante e reduzem os momentos de verdadeiro descanso psíquico.
A chamada “vida conectada” é, em si, um paradoxo: ao mesmo tempo em que aproxima as pessoas de um mundo virtual ilimitado, acaba por desligá-las, em muitos momentos, da experiência concreta da vida cotidiana. O mundo virtual oferece uma sucessão de estímulos, notificações constantes, múltiplas conversas instantâneas, vídeos curtos e notícias em tempo real, que capturam a atenção e produzem uma sensação de presença em “todo lugar”.
Já o mundo real é aquele dos corpos, dos encontros face a face, das esperas, frustrações e desencontros, em que nos vemos confrontados com os limites e com a falta, um ambiente menos atraente diante da promessa de satisfação imediata das telas.
A psicanálise explica que o fluxo incessante de estímulos on-line favorece um modo de funcionamento em que as experiências vão se acumulando de forma fragmentada, pois a mente não é apenas um processador de informações, mas um campo psíquico onde as impressões são inscritas, formando a subjetividade de cada um.
Contudo, no mundo virtual as experiências passam a ser consumidas rapidamente, sem tempo de serem simbolizadas. O resultado é um aparelho psíquico saturado de impressões, convocado a responder sempre ao novo estímulo que surge, que busca continuamente uma inscrição na próxima imagem, notificação ou vídeo.
Nesse movimento, o usuário fica em um estado emocional cronicamente cansado e difuso, pois embora conectado a uma “rede social”, se sente isolado e angustiado, sendo demandado a responder a uma alta performance.
As telas não oferecem apenas entretenimento, mas também um cenário permanente de comparação, cobrança e exposição, no qual é preciso responder rápido, produzir conteúdo, opinar sobre tudo e estar atualizado o tempo todo.
A busca por esse ideal de alta performance é reforçada pelas redes, que funcionam como uma espécie de mandato superegóico: quanto mais o sujeito tenta acompanhar o fluxo e corresponder às expectativas (curtidas, respostas imediatas, presença constante), mais se sente em falta, culpado e exausto.
Portanto, não se trata apenas de excesso de informação, mas de um excesso de exigência sobre o eu, que fragiliza os recursos de simbolização e esvazia os espaços de silêncio, de ócio e de não saber, fundamentais para que algo do desejo possa emergir e para que a experiência psíquica encontre tempo de se inscrever. Recuperar o silêncio, o ócio e o tempo de elaborar não é luxo: é condição para existir sem se perder no excesso.
Por Juliana dos Santos Lourenço
formada em Psicologia, mestre em Psicanálise, especialista em Psicologia Clínica, professora/tutora do curso de Bacharelado em Psicanálise da Uninter
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