Determinismo climático e eurocentrismo: desvendando mitos sobre desenvolvimento global

Como a falsa correlação entre clima frio e progresso econômico perpetua narrativas coloniais e naturaliza desigualdades históricas

Recentemente, discursos que correlacionam clima frio a maiores índices de desenvolvimento econômico geraram grande repercussão nas redes sociais e na mídia. À primeira vista, o argumento parece oferecer uma explicação “natural” para desigualdades globais. Mas será que o clima é realmente o fator determinante? Ou estamos diante de uma narrativa simplista que recicla ideias eurocêntricas?

A primeira falha dessas perspectivas é confundir correlação com causalidade. É verdade que países localizados em zonas temperadas concentram maior PIB per capita, mas isso não significa que o frio seja a causa do desenvolvimento. Essa leitura ignora variáveis históricas, políticas e coloniais que impactaram a geografia e a economia global. Reduzir desigualdades a fatores climáticos é uma forma de despolitizar a discussão.

Culpar o clima pelas desigualdades globais é um argumento simplório que retoma, com nova roupagem, teorias do século XVIII. Naquele período, pensadores europeus defendiam que povos de regiões tropicais eram “preguiçosos” ou “menos racionais”, justificando a invasão, a pilhagem colonial e a escravidão. Hoje, quando se afirma que “o frio favorece o progresso”, estamos diante de um eco dessas ideias, ainda que mascarado por gráficos e estatísticas.

O que vemos é que o mesmo argumento que serviu para explicar a suposta inferioridade de certos povos e legitimar a colonização é agora mobilizado para justificar os efeitos nefastos gerados pelos colonizadores e eximi-los de suas responsabilidades. Atribuir ao clima a responsabilidade pelo desenvolvimento desconsidera a violência histórica que construiu essas assimetrias e naturaliza a posição privilegiada do Norte Global.

A correlação entre clima e desenvolvimento não é neutra nem inocente. Quando usada para explicar desigualdades, ela se torna uma ferramenta ideológica que perpetua visões eurocêntricas e racistas. Se há um fator que impactou o desenvolvimento, ele se chama “colonialismo europeu em zonas tropicais”. O desafio é deslocar o debate para onde ele realmente importa: as estruturas históricas, políticas e econômicas que sustentam a desigualdade global, ao invés de culpar o pobre do clima.

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Por Andressa Ignácio da Silva

Socióloga e Professora da área de Território e Sociabilidade do Centro Universitário Internacional UNINTER

Artigo de opinião

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