Mulheres sobreviventes de feminicídio: traumas invisíveis e a urgência da escuta qualificada
Além das estatísticas, o impacto psicológico da violência de gênero exige cuidado especializado e acolhimento social para a reconstrução da vida dessas mulheres
Mesmo quando escapam da morte, mulheres sobreviventes de feminicídio carregam marcas invisíveis como medo constante, vergonha, ansiedade e traumas profundos. No Agosto Lilás, dedicado à conscientização pelo fim da violência contra a mulher, é urgente dar voz a essas histórias, mostrando que a violência ultrapassa o ato físico e exige escuta, cuidado especializado e reconstrução da identidade.
Quando uma mulher sobrevive a uma tentativa de feminicídio, ela não sai ilesa. O corpo pode resistir, mas a mente e o coração carregam feridas profundas e, muitas vezes, invisíveis. É preciso lançar luz sobre as histórias de quem escapou por pouco da morte e agora precisa reconstruir sua vida diante de traumas devastadores, exposição pública e um sistema ainda despreparado para acolhê-la.
O feminicídio, conforme definido pela Lei nº 13.104/2015, é o assassinato de uma mulher em razão do gênero. Mas antes da morte, há toda uma escalada de abusos e violências. E quando a tentativa fracassa, o que sobra são mulheres marcadas por dores psíquicas profundas, muitas vezes silenciadas pela vergonha, pelo medo e pelo julgamento social. O que já era devastador no privado, agora é exposto, gerando uma nova camada de violência: a exposição e o julgamento de um grande público ignorante que nada entende desse tipo de trauma relacional.
O trauma dessas sobreviventes é complexo e múltiplo. Não estamos falando apenas de um episódio traumático, mas de uma sobreposição de camadas de dor, medo, vergonha, exposição e solidão. O corpo, a psique e a identidade da vítima ficam atravessados não só pela violência em si, mas por múltiplos choques relacionados ao medo real de morrer e à violação de uma intimidade que já carrega tantas feridas.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 7 mil mulheres foram vítimas de tentativa de feminicídio no Brasil somente em 2024. São mulheres que sobrevivem, mas raramente recebem o suporte necessário para lidar com o impacto psicológico da violência. Muitas delas desenvolvem transtornos como estresse pós-traumático, ansiedade severa, depressão, fobias sociais e sintomas físicos ligados à somatização.
A verdade é que não dá para prever o conjunto de sinais e sintomas que vão aparecer a partir de um evento desses porque o trauma não está no evento em si, mas na resposta interna do organismo àquela vivência. Duas pessoas podem passar pelo mesmo evento e reagirem de formas diferentes, dependendo da história pessoal, dos apoios disponíveis e da resiliência.
Além do trauma psicológico, essas mulheres enfrentam a falta de proteção continuada, dificuldades financeiras, abandono familiar e até a revitimização institucional. O tratamento especializado e humanizado é essencial para a reconstrução dessas vidas. O mais importante é que a vítima receba o tratamento adequado e com profissionais especializados para que ela possa processar o que foi vivido, restaurar o senso de segurança e voltar a pertencer ao próprio corpo e à própria história.
O Agosto Lilás, campanha que marca os 18 anos da Lei Maria da Penha, reforça, neste ano, a importância do acolhimento e da escuta qualificada. Criada para conscientizar a população sobre os diversos tipos de violência contra a mulher, a iniciativa também divulga canais de apoio como o Ligue 180, os Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs) e as Delegacias Especializadas. No entanto, o acolhimento não se resume a instituições: ele começa no olhar da sociedade. É urgente que paremos de julgar e passemos a escutar. Só assim vamos conseguir interromper o ciclo de violência e ajudar essas mulheres a reconstruírem suas histórias.
Por Bruna Côrtes
Psicóloga clínica com mais de 15 anos de experiência, especialista em Psicotrauma e Terapia Sistêmica, diretora técnica e psicóloga clínica na Norte Saúde Mental, professora e supervisora de terapeutas em formação, palestrante e facilitadora de vivências psicológicas coletivas
Artigo de opinião



