Por outras masculinidades: possíveis e necessárias

por *Jorge Miklos

O que significa ser homem no mundo contemporâneo? Quais as expectativas são projetadas nos meninos durante a infância e a adolescência? Que atitudes, gestos, comportamentos, performances são consideradas como modelos de masculinidade para homens adultos?

Durante muito tempo não pairavam dúvidas a respeito como um menino do sexo masculino deveria se comportar para ser considerado homem pelo ambiente social no qual ele pertencia. Uma frase exclamativa era – e ainda é – enunciada sempre que um menino, por alguma razão, se distancia do modelo esperado: “seja homem”! Essa frase, dita para o menino desviante da masculinidade hegemônica, serve como advertência para que ele corrija a rota que o levará ao destino inexorável: ser um homem de verdade.

A experiência de masculinidade é variável para cada pessoa ao longo da vida, no entanto, existem crenças enraizadas no imaginário social sobre ‘o que é ser homem’ que moldam as expectativas grupais, formatam narrativas e plasmam comportamentos que induzem um modelo machista, patriarcal e violento.

Esse padrão foi chamado pela socióloga australiana Raewyn Connell, reconhecida por seu trabalho pioneiro nos campos de estudos de gênero e estudos da masculinidade de masculinidade hegemônica. Seguindo o padrão hegemônico de masculinidade, considera-se “homem”, aquele que demonstra poder, virilidade, sucesso econômico, utiliza da violência para solução de problemas, possui um corpo dentro do padrão midiático normativo, possuem orientação sexual heterossexual, demonstram que são superiores às mulheres, exercem dominação sobre elas bem como, sobre outros homens.

A masculinidade hegemônica é definida como a configuração que legitima a posição dominante dos homens na sociedade e justifica a subordinação das mulheres e outras formas marginalizadas de ser um homem, como por exemplo, no Brasil, os homens pobres, periféricos e pretos.

A masculinidade hegemônica é “filha” do patriarcado e a “mãe” do machismo. O patriarcado é um sistema cultural que estrutura a civilização. Patriarcado significa, “a regra do pai”. É o sistema sociocultural no qual que homens mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades. No domínio da família, o pai (ou figura paterna) mantém a autoridade sobre as mulheres e os filhos. A ideologia do patriarcado se reproduz por meio das religiões monoteístas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo bem como, por meio da cultura educacional, corporativa e midiática. O patriarcado é estrutural na medida em que estrutura a vida intima e pública em todas os campos.

O machismo, decorrência do patriarcado, é a percepção de que o homem deve ser viril e autossuficiente. Molda um forte senso de orgulho exagerado de ser masculino. Está associado à responsabilidade de que um homem deve prover, proteger e defender sua família. Trata-se, em contrapartida, da crença na fragilidade e na inferioridade da mulher.

A masculinidade hegemônica, o patriarcado e o machismo são responsáveis por séculos de dominação dos homens sobre as mulheres bem como por disseminar violência física e simbólica contra as mulheres. O modelo machista dominante de masculino é a causa de dor, sofrimento e morte nas mulheres. Os números evidenciam que não trata de “mimimi”.

A mídia brasileira veiculou 32.916 casos de estupro no Brasil entre os meses de janeiro e novembro de 2018. Cerca de 43% das vítimas desse crime possuíam menos de 14 anos de idade. A cultura do estupro está presente em todas as fases da vida da mulher. Mais do que um desejo de atender a um impulso sexual, o estupro é um instrumento de poder, dominação.

Entre os meses de janeiro e novembro de 2018, a imprensa brasileira noticiou 14.796 casos de violência doméstica em todas as unidades federativas. Os maiores agressores das mulheres ainda são os companheiros (namorados, ex-esposos) correspondendo a 58% dos casos de agressão. Os outros 42% ficam na conta dos pais, avôs, tios e padrastos. A maioria das vítimas (83,7%) possui entre 18 e 59 anos de idade, sendo que a margem que mais concentra a idade das vítimas é entre 24 e 36 anos. São mulheres jovens adultas que vivem relacionamentos afetivos que desbocam no abuso físico. Cerca de 1,4% das vítimas tinham menos de 18 anos na época da agressão. Já aquelas com mais de 60 anos de idade correspondem a 15%.

No mesmo ano de 2018, 15.925 mulheres foram assassinadas em situação de violência doméstica. Cerca de 6,7% das vítimas de feminicídio possuíam menos de 18 anos de idade. A maioria (90,8%) das mulheres assassinadas nessa condição tinham entre 18 e 59 anos de idade. As idosas foram vítimas de feminicídio em 6,7% dos casos noticiados pela imprensa brasileira entre janeiro e novembro de 2018. Pela natureza do crime, a maioria dos assassinos dessas mulheres são seus companheiros, ex-companheiros, namorados e esposos. Eles representam 95,2% dos algozes. Já os parentes, em especial os pais, avós, irmãos e tios representam cerca de 4,8% dos responsáveis pelos feminicídios.

O machismo não afeta somente as mulheres embora, claro, elas sejam as grandes e maiores vítimas. As mulheres são alvo de milênios de múltiplas opressões. Por isso, quando se fala em opressão sobre o feminino, hoje deve-se pensar em uma opressão interseccional, ou seja, várias camadas de opressão: gênero, classe e raça. Mulheres negras, transsexuais e pobres sofrem o triplo de opressão do que as mulheres brancas, ricas e cisgênero. Ou seja, há vários aspectos que atravessam a opressão.

  O machismo coloca homens também num lugar de sofrimento. 83% das mortes por homicídios e acidentes no Brasil são de homens. Homens vivem 7 anos a menos que as mulheres. Homens suicidam-se 4 vezes mais que as mulheres. 17% dos homens lidam com algum nível de dependência alcoólica. Quando sofrem um abuso sexual, demoram em média 20 anos até contar isso para alguém. 30% enfrentam ejaculação precoce ou disfunção erétil. Homens são 95% da população prisional no Brasil. A maior parte dos encarcerados são jovens, periféricos e com ausência de figura paterna. Negros e LGBT’s são mais atingidos.

Estamos falando da navalha patriarcal que fere e viola os corpos de mulheres, crianças, gays, trans e está aniquilando de forma determinante a mãe Terra. No momento em que escrevo este artigo, vivemos a repercussão e os impactos das notícias da prisão flagrante do médico anestesista Giovanni Quintella Bezerra após ser flagrado estuprando uma paciente durante o próprio parto dela.

Vira homem!”, “Isso é coisa de menina“, “Quem gosta disso é viado“, “Homem não chora!“. Quantas vezes os homens ouvem isso ao longo da infância e adolescência, podando talentos e vontades para construir uma personalidade que se encaixe no padrão do que é ser masculino?

O imperativo da masculinidade hegemônica, machista e patriarcal é tóxico uma vez que implica violência externa de homens contra mulheres (misoginia) e de homens contra homens. Pesquisa realizada pela ONU Mulheres e o Portal Papo de Homem aponta que construção da identidade masculina estereotípica é expressa em nove orientações básicas: cultura do herói; violência; heterossexualidade; restrição emocional; capital viril; pertencimento ao grupo; alta performance no desempenho sexual; alta performance no desempenho profissional; provedor. Seguir essa receita implica integrar-se às expectativas de como os homens devem agir, sentir e falar. Essa lista, denominada A Caixa do Homem, é uma diretriz traçada em torno de perspectivas de um ideal masculino com formas e limites rígidos que, se por um lado oferece privilégios, por outro aprisiona e adoece. O conjunto desses padrões epitetado, masculinidade tóxica encoraja a violência, a falta de incentivo em procurar ajuda quando é preciso, o estupro, a homofobia, a misoginia, o feminicídio e o racismo.

Implica também uma violência interna na medida em que, no sistema patriarcal existem diversas formas de transformar o menino em homem, com um processo transição é necessário que a criança prove a sua virilidade; assim, “a masculinidade é conquistada no final de um combate (contra si próprio) que não raro implica em dor física e psíquica” afirma Elisabeth Badinter em XY: Sobre a identidade masculina (1993, p.69-70). Tornar-se homem é em muitos sentidos, deitar-se no leito de Procusto.

Procusto é um personagem da mitologia grega. Os viajantes que iam de Mégara a Atenas, eram forçados a se deitarem em seu leito de ferro. Se fossem menores, Procusto esticava suas pernas. Se fossem maiores eram esquartejados para se ajustar ao tamanho do leito. O nome Procusto significa “o esticador”, em referência à punição que aplicava às suas vítimas O domínio de Procusto findou quando Teseu decepou a cabeça e os pés, aplicando-lhe a mesma crueldade que impunha aos homens.

O leito de Procusto é a metáfora para a performance exigida aos homens pela cultura machista. Para adaptarem-se ao padrão social, muitos homens precisam amputar aspectos significativos do seu ser ou, estender aspectos estranhos para corresponder às expectativas do machismo cultural.

Por exemplo, o machismo institui aos meninos que o tamanho do pênis regula a sua masculinidade; sentencia aos homens que não há espaço para demonstrar sentimentos, emoções; treina os adolescentes para que percebam que a masculinidade do homem é mensurável pelo dinheiro, pela marca do carro e pelo sucesso profissional. O leito de Procusto se faz presente nos ambientes familiares, escolares, empresariais e políticos e midiáticos. O leito de Procusto é uma cama de pregos, se por um lado adapta o homem à cultura patriarcal e machista, por outro, causa-se dor e sofrimento.

Sabemos que a construção da ideia de uma masculinidade e do que é ser homem está totalmente atrelada ao modo como são organizadas as sociedades ocidentais capitalistas. Em outras épocas e outros lugares, havia outras formas de organizar as corporeidades que não essa binária e opositiva.

Nessa divisão, a constituição do homem como categoria universal favorece as formas de dominação masculina e empobrece o mundo subjetivo da masculinidade. Logo, não há possibilidade de superação das múltiplas violências sofridas nem por esses sujeitos, nem pelos sujeitos subalternizados sem que haja questionamento da forma como a masculinidade se organizou historicamente.

  A despeito desse cenário catastrófico, observa-se um esforço no sentido de propor mudanças. Se por um lado, ainda há na cultura comportamentos, de forma muito acentuada, discursos e ações violentos que reforçam o espírito de uma masculinidade machista nos homens e nas mulheres, ou seja, indícios que acobertam a perpetuação de um comportamento tradicional da masculinidade, por outro, há movimentos silenciosos e por vezes isolados. Aqui e ali, de maneira silenciosa e isolada, surgem grupos reflexivos de homens, descontentes e insatisfeitos com esse padrão hegemônico machista e que, procuram levantarem-se do leito de Procusto.

Esses homens incomodados procuram tensionar o padrão clássico propondo a ressignificação da masculinidade. Há uma tensão que atravessa o imaginário social suscitando considerar a possibilidade não mais de pensar a unilateralidade do padrão masculino no singular e acolher a pluralidade de identidades masculinas.

Que novos modos de ser homem apontam para a desconstrução da masculinidade emergem na cena contemporânea? É possível ser homem sem a máscara da heteronormatividade, do machismo, do poder, da violência, da dominação? Se a resposta para as questões anteriores é sim, quais os caminhos possíveis para reimaginar a masculinidade no contemporâneo?

Nos solidarizamos com todas as mulheres que foram e ainda são vítimas desse sistema patriarcal, machista, misógino e violento. Nós homens, precisamos cuidar e estarmos alertas e atento para não sermos engolidos pela cultura da banalidade do mal.

Ao lado das mulheres queremos imaginar que outras masculinidades, andróginas, integrativas, decoloniais são possíveis, urgentes e necessárias.

 

*Jorge Miklos é sociólogo, psicólogo e psicanalista na abordagem analítica integrativa. É mestre em Ciências da Religião e doutor em Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Trabalha na interface entre Psicanálise, Religião e Cultura. Suas reflexões abordam o vínculo social, o mito, a literatura, o cinema, a cibercultura, os conflitos, a política e as questões contemporâneas como gênero, masculinidades, religião, vida digital e diversidade. Atua como Professor e Pesquisador no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Midiática da Universidade Paulista. 

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