Adolescentes rebeldes: como pais e professores podem encarar esse desafio?

A chamada 'rebeldia' é algo natural, mas precisa ser mediada

Quem nunca ouviu falar em “rebeldes sem causa”? Ou “a ovelha negra da família”? Pois bem, quem tem filhos adolescentes, ou mesmo trabalha com essa faixa etária como professor, por exemplo, sabe bem o que é ouvir – e até mencionar – esses termos. Mas será que eles estão corretos? Pode-se considerar, afinal, que um adolescente é rebelde (ou “ovelha negra”) simplesmente para chamar a atenção?

A resposta é: não. Essa “rebeldia” é um comportamento que faz parte de uma fase de construção de identidade – fase esta que precisa ser mediada. Segundo o professor de Formação Humana do Colégio Bom Jesus, Cornélio Schwambach, diversas pesquisas indicam que o cérebro de um adolescente passa por muitas transformações, ou seja, está em movimento maior do que o dos adultos. Essas mudanças constantes é que refletem nas alterações de comportamento. “Costumo até dizer aos meus alunos para não tomarem decisões muito críticas na adolescência porque provavelmente na vida adulta eles poderão se arrepender”, comenta o professor.

Assim, pais e professores – que são as “autoridades” mais próximas dos jovens nessa fase – devem ter alguns cuidados. De início, entender que o adolescente precisa, sim, ‘ser rebelde’, de certa forma. Mostrar suas opiniões, mas sempre com educação e respeito. “Para nós, educadores, é até difícil encarar essa discórdia, porque ela pode soar, muitas vezes, como desrespeito. Ainda assim, nós precisamos nos posicionar. Não dizer a eles simplesmente ‘não pode’, mas argumentar por que determinado fato ou opinião pode estar errado”, observa. Nessa argumentação, é preciso expressar alguns limites – sejam os pais, professores ou outros que fizerem parte do círculo de convivência desses jovens. “É interessante ajudá-los a chegar às suas próprias conclusões, e não dar a receita pronta a eles. Além disso, mostrar as consequências de seus atos”, aconselha Cornélio.

Segundo o professor, os pais também precisam aprender a ser mais compreensivos, flexíveis, entender que sabem o que é mais correto para seus filhos, mas dar abertura para o novo. “Assim como o cérebro de um adolescente precisa evoluir, é preciso compreender que o nosso também tem essa necessidade. É fácil? Não, não é fácil. Tanto que muitos adolescentes são agressivos porque aprenderam com seus pais, o que leva a resolverem os confrontos com agressão”, observa o professor.

Assim, é preciso compreender que o jovem clama por limites e não por imposições. Tentar pensar “fora da caixa” na tentativa de entendê-lo – ser empático – torna-se cada vez mais importante nessa fase da vida. É necessário ainda prestar atenção e ‘ligar o alerta’ para algo que não está dentro do esperado. “Não quero dizer que os jovens precisam experimentar de tudo para saber o que é melhor. Mas é importante compreender que existem transtornos, patologias, que os pais e professores precisam identificar e, se necessário, encaminhar para acompanhamento de profissionais da área clínica. Quanto antes esse acompanhamento ocorrer, maior o sucesso de uma intervenção eficaz”, alerta o professor.

 

Comparações

Outro ponto a se considerar é que o adolescente se compara com seus colegas. Segundo o professor, muitas vezes os pais devem ficar atentos a isso, pois a comparação pode gerar uma maior ansiedade em ser igual ou superior ao outro, na ideia de que ele precisa conseguir atingir seus objetivos de qualquer forma. “Essa tensão pode ser maior quando ele é cobrado, por exemplo, no período de provas. Vamos lembrar que os adolescentes passaram dois anos fazendo provas on-line (a maioria em grupo) com consulta, e um hábito não se muda rapidamente. Aliás, uma das coisas que observei nos últimos vestibulares e provas em geral – Enem, por exemplo – foi a ansiedade excessiva dos alunos e dos pais”, alerta o professor.

Cornélio atenta também para o excesso de permissividade. Segundo ele, o adolescente não consegue entender ainda o limite entre a amizade e o papel do pai e da mãe. “A família é a base do equilíbrio e do bom desenvolvimento acadêmico, psicológico e social do adolescente. Acredito que tanto o autoritarismo como a permissividade são os extremos na educação dos filhos, creio que a parentalidade positiva é mais eficiente. Educação firme e gentil. Gosto da ideia da margem (pais) e rio (filhos). Creio na concepção do amor como uma decisão, por isso, se eu amo, eu respeito”, avalia.

Novamente, é preciso também pensar na formação cerebral dos adolescentes. “Poderíamos pensar que as experiências amadurecem o cérebro, e isso em parte é verdadeiro, pois elas podem levar a mais conexões e aprendizagem. Mas para esse amadurecimento acontecer é necessária a presença de um córtex frontal mais desenvolvido, o que não é comum na fase da adolescência”, finaliza.

Fazendo uma comparação, é como presentear uma pessoa que não sabe dirigir com um carro de alto padrão e falar: vá lá e dirija! “Creio que muitos pais fazem isso com seus filhos, com aquele discurso de que ‘meu filho é maduro’. Mas não há como fazer tal afirmação, pois assim está se concluindo que um córtex está maduro simplesmente por achismo”. Segundo o professor, mandar ou impor pode até causar o efeito contrário, afastando o jovem. “Se você indica para uma criança o que ela deve fazer e faz, é possível oferecer-lhe uma recompensa. Dizer, por exemplo, que seus pais ficarão felizes se ela fizer isso. Com o adolescente essa abordagem não funciona, pois dizer a ele ‘faça isso’ou ‘faça aquilo’ pode até mesmo afastá-lo. É preciso ajudá-lo a resolver seus desafios por si mesmo. Dizer a ele quais serão as consequências”, alerta o professor.

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