Na COP26, presidente da Embrapa defende transformação de sistemas alimentares em nível global

O presidente da Embrapa, Celso Moretti, representou o Painel Global para Agricultura e Sistemas Alimentares para Nutrição em evento na COP26 - Foto: Divulgação

A ciência é fundamental para que sejam mais inclusivos, sustentáveis e garantam a acessibilidade da população mundial à nutrição saudável

Em painel paralelo na COP26 nesta segunda-feira (8/11), o presidente da Embrapa, Celso Moretti, defendeu a necessidade urgente de transformação dos sistemas alimentares em nível global para garantir acessibilidade da população à alimentação. Moretti representou o Painel Global para Agricultura e Sistemas Alimentares para Nutrição, um grupo internacional independente criado em agosto de 2013 em Londres, no painel “Abordando o fardo triplo das mudanças climáticas, conflitos e desnutrição para melhorar as perspectivas de paz ‘.

O evento foi moderado pela Princesa Sarah Zeid, Conselheira Especial de Nutrição Materna e Infantil, da Jordânia, e contou com as participações do Ministro de Desenvolvimento Internacional da Irlanda, Colm Brophy; do Conselheiro Especial para Ação Climática do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) em Genebra, Andrew Harper; da representante do Grupo Consultivo sobre Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), Claudia Sadoff.; e do Diretor-Executivo Assistente para Parcerias e Advocacia do Programa Mundial de Alimentos da ONU, Ute Klamert.

Moretti ressaltou a experiência de sucesso da agricultura brasileira ao longo das últimas cinco décadas, que permitiu ao Brasil passar de importador de alimentos, na década de 1970, para um dos maiores players do agro mundial na produção de alimentos, fibras e bioenergia. O sucesso da tropicalização da agricultura do País tem como pano de fundo a ciência, pontuou o presidente, lembrando que hoje o Brasil alimenta cerca de 800 milhões de pessoas e exporta para 209 países.

“E o que é mais importante, fazemos isso produzindo e preservando dois terços do nosso território, o que é equivalente a 48 países europeus”, enfatizou.

O presidente da Embrapa representou o Painel Global em Agricultura e Sistemas Alimentares (saiba mais em quadro ao final desta matéria) do qual é membro. E destacou que é urgente investir na transformação dos sistemas alimentares. Segundo ele, esses sistemas têm falhado em não prover a nutrição alimentar necessária à alimentação saudável, assim como a adoção de práticas que não protegem o meio ambiente. Estimativas indicam que a desnutrição é responsável por 20% das doenças em nível mundial. Cerca de 11 milhões de pessoas morrem todos os anos por doenças associadas a esse problema. “Uma dieta nutritiva e saudável, baseada nos padrões de consumo e preços atuais, é inacessível para cerca de três bilhões de pessoas em todo o mundo”, acrescentou.

 

Além disso, os sistemas alimentares respondem por 25 a 30% das emissões de gases e 70% do uso de água doce em nível global. Como fatores agravantes às mudanças climáticas e capacidade de produzir alimento, destacam-se ainda a degradação do solo, aumento dos níveis dos oceanos, perda de biodiversidade, poluição e perda de recursos hídricos. “Hoje, o custo global para que os sistemas alimentares possam garantir nutrição saudável aliada à preservação ambiental é estimado em US$ 12 trilhões de dólares por ano. Se nós continuarmos com os modelos atuais, os custos para a saúde humana, meio ambiente e a economia serão imensuráveis”, complementou.

Segundo Moretti, sistemas alimentares reformados e com melhor funcionamento fornecem alimentos seguros, acessíveis e nutritivos que compõem uma dieta saudável, ao mesmo tempo que nutrem o ambiente natural. São essenciais para a sociedade, além de estarem no centro do cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

“É uma situação ganha-ganha. Sistemas alimentares sustentáveis que funcionam bem podem oferecer ganhos múltiplos: melhorias econômicas, sociais, de saúde e planetárias, durante e além desta pandemia”, enfatizou.

Acessibilidade é a chave para áreas de conflito e fragilidade alimentar

O presidente explica que quando se avalia os sistemas globais de produção de alimentos sob a perspectiva da realidade de áreas de conflito, a situação é ainda mais preocupante. Os conflitos prejudicam os sistemas alimentares de muitas formas, afetando a distribuição de alimentos, a capacidade de processar e comercializar, assim como impactam em mudanças nas demandas por consumo de alimentos.

O Índice Global da Fome de 2019 identificou conflitos e mudanças climáticas como dois dos fatores que mais impulsionam o recente aumento nos níveis globais de subnutrição. As evidências apresentadas no relatório do Painel Global de 2020 mostram que a desnutrição é desproporcionalmente maior em países com conflito e contextos frágeis. “Em países afetados nessa situação na África Subsaariana, o número de pessoas subnutridas aumentou em 23,4 milhões entre 2015 e 2018, e em um ritmo mais rápido em comparação com países não expostos a conflitos”, acrescentou.

“É claro que os conflitos não são os únicos responsáveis por esses problemas. Aliados a eles, estão os choques climáticos e a governança fraca. Oitenta por cento das pessoas afetadas por desastres naturais estão em regiões frágeis. Um dos fatores agravantes é o manejo inadequado de recursos naturais, como a água, por exemplo”, explicou.

Moretti aponta como uma das soluções investir em sistemas de produção de alimentos robustos, cujo foco deve ser holístico. “Os sistemas alimentares não podem ser pensados de forma isolada. Temos que focar nas necessidades dos grupos mais vulneráveis para garantir que tenham acesso à alimentação saudável e nutritiva. “A acessibilidade é, portanto, uma das chaves para a sobrevivência das populações em países como a Somália, Nigéria, Madagascar, entre outros em situação de risco alimentar”, pontuou. Pesquisas recentes de ambientes alimentares nesses países mostram que dietas nutritivas custam de 4 a 7 vezes o custo de uma dieta que atende apenas às necessidades de energia, em comparação com apenas 2 a 4 vezes o custo em ambientes relativamente estáveis.

Proatividade contra a fome: monitoramento e antecipação de problemas

Outro ponto é a necessidade de investir em sistemas mais eficientes para monitorar e antecipar questões relevantes relacionadas ao acesso à segurança alimentar em áreas de fragilidade. “Ações e alertas antecipados são as chaves do sucesso”, ressaltou o presidente, lembrando que é fundamental fortalecer a capacidade de resposta por meio de medidas preventivas, como redes de segurança social, investimentos na proteção de meios de subsistência frágeis, sistemas de alerta precoce e reservas fiscais e alimentares de emergência.

É importante também abordar pontos subjacentes relacionados à fragilidade do sistema alimentar, como por exemplo, as causas profundas de conflitos e distúrbios.

“Isso exigirá um investimento de longo prazo, a partir da capacitação de pequenas empresas, investindo em infraestrutura essencial (principalmente estradas, energia, abastecimento de água) e melhorando a capacidade de armazenamento de alimentos para reduzir a deterioração e os riscos à segurança alimentar. Em 2030 teremos 8,5 bilhões de habitantes na terra. A demanda de energia, alimentos e água aumentará dramaticamente”, frisou.

As políticas alimentares em áreas sujeitas a conflitos e fragilidades ambientais têm que focar em desnutrição e fome, garantindo que as intervenções para aumentar a diversidade alimentar sejam consideradas juntamente com o fornecimento vital de alimentos básicos. Isso promoverá o consumo de alimentos mais ricos em nutrientes, vitais para a saúde e o desenvolvimento.

Ciência mais próxima das necessidades da população mundial

A Princesa Sarah Zeid Princesa, que moderou o painel, lembrou que hoje há uma quantidade extraordinária de pesquisas, evidências e conhecimento, mas destacou que é preciso investir em mais cooperação para compartilhar esse conhecimento em prol das desigualdades sociais.

Andrew Harper, da Australia, ressaltou que é preciso estreitar os laços com governos e comunidades locais para conhecer as suas reais necessidades. “A ciência precisa estar mais atenta às necessidades das populações. É preciso unir esforços com instituições locais para aumentar a capacidade dos produtores. Engajamento local e regional são fundamentais. Muitas ações empreendidas resultam em desperdício de tempo e dinheiro porque não atendem às necessidades reais dos produtores”, disse.

Moretti ressaltou que a aproximação com o setor produtivo é uma das prioridades na gestão de PD&I da Embrapa. “Temos 2.200 pesquisadores e enfatizo diariamente que a ciência, além de produzir publicações e artigos científicos, deve sobretudo focar em soluções para os problemas da agropecuária e alimentação”.

O presidente da Embrapa e a representante do CGIAR destacaram a importância das parcerias. Claudia Sadoff explicou que o Grupo tem hoje 3.000 parceiros, entre os quais a Embrapa. “A parceria com a Empresa tem sido crucial para levar inovação ao campo em prol da estabilidade alimentar, especialmente no que se refere a variedades melhoradas. “Ao longo das últimas décadas, obtivemos um enorme progresso em mudar a nossa forma de ação de reativa para proativa. Essa COP deixou muito clara a importância da agricultura para o enfrentamento às mudanças climáticas e na próxima, eu espero que haja mais resultados em prol da nutrição e segurança alimentar”, disse a representante do CGIAR.

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