Locais de maior incidência de dengue também são os da Covid

Esse grave problema de saúde pública é constatado em algumas regiões urbanas de Presidente Prudente

Estudo que acaba de ser publicado na revista científica Tropical Medicine and Infectious Diseases (Medicina Tropical e Doenças Infecciosas) constata que os locais de maior incidência da dengue também são os da Covid-19, em algumas regiões urbanas de Presidente Prudente. Conforme o médico infectologista Dr. Luiz Euribel Prestes Carneiro, orientador da pesquisa, a coinfecção pelos vírus das duas doenças é um grave problema de saúde pública, gerador de colapso na demanda por leitos hospitalares, especialmente por usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

A constatação local é um indicativo de ocorrência da mesma situação em países endêmicos para a dengue como é o Brasil que em 2020, de acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, registrou maiores ocorrências nas regiões sul, Paraná; sudeste, São Paulo; e centro-oeste, Mato Grosso do Sul; Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal. Prudente tem conexões e é rota de passagem para o Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. A dengue é transmitida pelo mosquito palha, encontrado em regiões tropicais e subtropicais, em ambientes urbanos e semiurbanos.

Dificuldade de distinguir

No ano passado, a região oeste paulista, que tem Prudente como a cidade mais populosa com mais 230 mil habitantes, apresentou a maior prevalência de dengue no estado de São Paulo. Parte considerável dos casos aconteceu exatamente quando a pandemia da Covid-19 estava se estabelecendo nessa região. “As infecções de dengue e Covid-19 muitas vezes são difíceis de serem distinguidas, por possuírem sintomas em comum, tais como febre, dor de cabeça, náusea e vômitos, diarreia, cansaço e prostração”, pontua o pesquisador vinculado à Unoeste e que envolveu na pesquisa a Unesp e a Vigilância Epidemiológica Municipal (VEM).

“Além disso, as duas doenças podem acontecer ao mesmo tempo como coinfecção, dificultando ainda mais o diagnóstico”, explica e conta sobre o surgimento da pesquisa diante de atendimento como médico infectologista e que o deixou surpreso por se tratar de um médico que quatro dias por semana trabalhava em São Paulo, como intensivista. Ele contraiu a dengue em Prudente e passou à sua família. O mesmo ocorreu com a Covid-19, contraída em São Paulo, para a qual foi assintomático, mas que acabou testando positivo quando já tinha ocorrido a transmissão familiar.

Caso de um médico

O interesse por descrever esse caso clínico levou ao estudo da correlação dengue e Covid-19, mediamente o mapeamento espacial das duas doenças em Presidente Prudente, sobre os casos diagnosticados em 2019 e 2020 e Covid-19 em 2020. “A identificação de aglomerados espaciais simultâneos de dengue e Covid-19 associados a aspectos ambientais e socioeconômicos mostram as áreas vulneráveis da cidade e podem orientar as autoridades de saúde pública em intervenções intensivas para melhorar o diagnóstico, vigilância epidemiológica e a gestão de ambas as doenças” afirma o Dr. Euribel.

No período analisado, em Prudente foram localizadas três regiões onde um grande número de pessoas com dengue também foram infectadas com Covid-19. Há ainda outro fato, o de que duas dessas regiões já haviam apresentado surtos de dengue e aumento de leishmaniose visceral canina em anos anteriores. Todas as regiões na periferia da cidade.  “No entanto, uma região endêmica para dengue está localizada próxima ao centro, onde não havia associação com aumento de Covid-19. Por outro lado, foram encontradas regiões com grande número de indivíduos infectados por Covid-19, sem o mesmo correspondente à infecção por dengue”, conta.

Bairros mais afetados

“Uma das observações mais importantes é que as regiões com aumento de casos de dengue estão relacionadas a fatores ambientais como fundo de vale, presença de depósitos de resíduos sólidos irregulares (lixões clandestinos), terrenos baldios e áreas não urbanizadas. As regiões em que houve associação entre dengue e Covid-19 foram os bairros da zona leste: Cambuci, Vila Aurélio, José Rota, Jardim Paraíso, Santa Mônica e Itapura II; na zona norte: Bela Vista, Santa Elisa, Cohab, São Geraldo e Jardim São Paulo; e o bairro Brasil Novo, na zona norte.

“A identificação de aglomerados espaciais simultâneos de dengue e Covid-19 associados a aspectos ambientais e socioeconômicos mostram as áreas vulneráveis da cidade e podem orientar as autoridades de saúde pública em intervenções intensivas para melhorar o diagnóstico, vigilância epidemiológica e a gestão de ambas as doenças”, explica sobre o trabalho de grande importância epidemiológica por apresentar no mesmo estudo um relato de caso e a análise espacial de Covid-19 no contexto de um surto de dengue.

Problema dobrado

A publicação na revista é feita com o título “Problema dobrado: Dengue Seguida por infecção de Covid-19 Adquirida em Duas Regiões Diferentes: Relato de Caso de um Médico e Distribuição Espacial dos Casos em Presidente Prudente, São Paulo, Brasil” (Double Trouble: Dengue Followed by Covid-19 Infection Acquired in Two Different Regions: A Doctor’s Case Report and Spatial Distribution of Cases in Presidente Prudente, São Paulo, Brazil). O Dr. Euribel atua na Faculdade de Medicina da Unoeste e nos programas de pós-graduação em Ciências da Saúde e Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional.

Junto com ele, estiveram envolvidos na pesquisa seus alunos de doutorado em Meio Ambiente e professores da Faculdade de Medicina, a cardiologista Charlene Troiani do Nascimento e o infectologista Rodrigo Sala Ferro; o médico anestesiologista Sérgio Munhoz Pereira; a enfermeira da Vigilância Epidemiológica Municipal, Elaine Aparecida Maldonado Bertacco; o professor da Universidade Federal de Uberlândia Elivelton da Silva Fonseca; e o professor do departamento de estatística da Unesp, campus de Prudente, Dr. Edilson Ferreira Flores.

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