Obra aborda cyberbullying de alunos contra professores

Com o avanço no uso da Internet e das redes sociais, a prática de bullying virtual – o chamado cyberbullying – se tornou cada vez mais presente e, embora o foco em geral esteja em crianças e jovens que sofrem, professores e professoras são alvos frequentes de seus alunos e alunas.

Antônio Alvaro Soares Zuin, docente do Departamento de Educação (DEd) da UFSCar, explica ser consenso entre pesquisadores que o bullying é caracterizado por ter uma vítima marcada como objeto constante de agressões – físicas ou psicológicas. Já no cyberbullying, basta uma foto ou um vídeo da vítima sendo humilhada e uma interação. “Um comentário ou uma curtida já podem ser reproduzidos continuamente. Ou seja, a própria característica do ambiente virtual faz com que o bullying online se propague de maneira incontrolável”, destaca.

A temática, presente nas pesquisas realizadas por Zuin há 28 anos, impulsionou a produção do livro “Fúria narcísica entre alunos e professores – as práticas de cyberbullying e os tabus presentes na profissão de ensinar”, que está sendo lançado pela Editora da UFSCar (EdUFSCar). A obra é voltada a professores, outros educadores e estudiosos das áreas de Filosofia e Psicologia da Educação, além de quaisquer outras pessoas interessadas.

A profissão de ensinar: tabus e cultura digital

Com 162 páginas, o livro é dividido em três capítulos, além de introdução. O primeiro – “Os alunos e a história de cinco tabus em relação aos professores” – discorre sobre representações aversivas dos alunos em relação aos professores e ao ato de ensinar.

Historicamente, o processo de ensino-aprendizagem se desenvolveu numa espécie de tríade: aprendizado de conteúdo, disciplina e foco de atenção. “De certa forma, o professor controlava o acesso do aluno às informações, existindo uma espécie de relação hierárquica entre eles”, recupera o pesquisador da UFSCar. Com isso, surgiram os tabus, entre os quais os cinco detalhados no livro: o professor que castiga fisicamente os alunos; o que os pune psicologicamente; o que pratica a soberba intelectual; o autoritário; e o que é visto como indivíduo assexuado.

Ao longo dos anos, algumas das atitudes associadas a esses tabus foram proibidas, como é o caso da utilização da força física. No entanto, outras persistem e são ressignificadas com o passar do tempo, conforme explica o autor na obra.

Na segunda parte, intitulada “Os celulares, os alunos e as postagens sobre professores no YouTube”, Zuin analisa vídeos que se configuram como práticas de cyberbullying de alunos contra professores. Neste espaço, o autor reflete justamente sobre a ressignificação dos tabus na era digital.

“Hoje, há uma espécie de empoderamento dos alunos com esses aparelhos, a ponto de questionarem a importância do próprio professor, como figura de autoridade, em salas de aula”, explica o pesquisador.

Além disso, diante de tantos estímulos audiovisuais, os alunos transformam sua capacidade de concentração radicalmente, e a tendência é que o foco de atenção se fragmente. “Na medida em que as pessoas se tornam multitarefas – veem fotos nas redes sociais, respondem mensagens, e ao mesmo tempo precisam assimilar conteúdos -, a capacidade de concentração se torna cada vez mais dispersa, de modo que esta dispersão vai se transformando num elemento da própria concentração. Isso gera um fenômeno que chamo de concentração dispersa, um dos conceitos-chave do meu livro”, detalha Zuin.

Com isso, o autor traça as características da relação professor-aluno na cultura digital. “Se o processo de concentração dispersa estiver se consolidando, os alunos terão cada vez mais dificuldade em focar a atenção para poder estudar o conteúdo em sala de aula. Junto a isso, como se sentem empoderados com a tecnologia, vão se vingar da figura que historicamente exigiu a permanência da concentração com o aprendizado e o conteúdo, que é o professor”, analisa o autor.

Casos concretos estão nos vídeos analisados, que mostram filmagens feitas e postadas por estudantes de posturas inadequadas de professores e de alunos em sala de aula e relacionadas à tecnologia – que envolvem, por exemplo, comportamentos descontrolados de ambas as figuras por causa de celulares, como jogar objetos no chão para ganhar atenção. Todos os materiais analisados têm grande número de visualizações e de interações, como curtidas e comentários, o que se configura, portanto, como prática do cyberbullying.

“Na cultura digital, o papel da hierarquia se inverte: nela, os alunos realizam postagens de imagens, vídeos e comentários sobre os seus professores, adquirindo certo poder diante de determinadas situações, especialmente em sala de aula. Os tabus também são ressignificados, já que, em muitas situações, é o aluno quem se torna agressivo ou soberbo, além de causar punições psicológicas ao professor, com postagens em tons sarcásticos ou de chacota”, exemplifica Zuin.

Os motivos pelos quais os papéis se inverteram podem ter relação, segundo o pesquisador, com uma espécie de fúria narcísica dos alunos – como o próprio título da obra sugere -, que se intensifica nos meios digitais. “É como se, narcisicamente, os alunos encontrassem, na cultura digital, um momento para manifestar a sua fúria – tanto em relação a terem que se concentrar durante o aprendizado dos conteúdos, quanto em relação à figura do professor”, sintetiza.

Por fim, o terceiro capítulo, “Cyberbullying de alunos contra professores como forma de desengajamento moral online”, se debruça sobre oito tipos de desengajamento moral virtuais. Segundo Zuin, este é um termo da Psicologia, mais especificamente usado por Albert Bandura, que explica de quais maneiras as pessoas se liberam de padrões morais para realizar ações danosas a outras pessoas, sem que se sintam culpadas.

Com base na análise dos vídeos, a obra lista oito tipos de desengajamento moral que ocorrem naqueles contextos.

Um deles se refere à autodefesa pelo anonimato online: embora o computador de qualquer pessoa possa ser identificado pelo Internet Protocol (IP), os alunos que realizam cyberbullying se sentem mais protegidos diante das telas e, assim, se encorajam para produzir as postagens e comentários.

Outro tipo de desengajamento moral exposto na obra diz respeito ao desejo de ser “viral” – é narcisicamente sedutor para o aluno saber que seu vídeo soma mais de dois milhões de acessos virtuais. “Essa sensação passa a ser muito mais poderosa do que o receio de sofrer qualquer tipo de punição, pois o aluno será midiático e eletronicamente percebido, fazendo com que não se importe com as consequências das postagens”, analisa Zuin.

Ao final do capítulo, o autor reflete sobre possíveis formas de conscientizar professores e outros educadores sobre o cyberbullying, bem como maneiras para combatê-lo. Para ele, o processo passa necessariamente por uma reconfiguração da figura do professor, excluindo a característica da autoridade para passar a ter uma relação mais dialógica com os alunos, inclusive com o uso das tecnologias digitais.

Um dos caminhos – e grande desafio – está no professor tentar direcionar o foco de atenção do aluno para um determinado objeto, que pode estar, inclusive, no celular. Para isso, deve agir de forma respeitosa e como um incentivador de comunidades – tanto presenciais, como virtuais. “Ter a participação ativa, tanto do aluno como do professor, no processo de ensino-aprendizagem, e com o auxílio da tecnologia, pode ser um dos caminhos para que ambos se tornem verdadeiramente agentes educacionais”, finaliza.

Para o lançamento de “Fúria narcísica entre alunos e professores – as práticas de cyberbullying e os tabus presentes na profissão de ensinar” foi realizado debate com o autor, na série de eventos “EdUFSCar no ar”. A gravação está disponível no canal UFSCar Oficial no YouTube.

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