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O dilema do amor romântico

por Sara Campagnaro

Antes de os portugueses invadirem o Brasil, as relações afetivas entre os povos indígenas eram muito mais coletivas. Mulheres e homens dividiam as tarefas de modo mais igualitário e as crianças eram responsabilidade de toda a tribo. Viemos de uma tradição colonizada de amor, pois com a colonização, os portugueses impuseram, de modo violento, sua cultura. Por isso que hoje, muitos dos mitos ocidentais, como os dos gregos ou a construção amorosa da Idade Média europeia, se encontram enraizadas na nossa cultura.

Nos dias de hoje, ainda vemos o ideal de alma gêmea muito presente em nossa vida cotidiana. Desde as referências mais básicas como as princesas da Disney ou nos filmes de comédias românticas, livros e músicas. Nós mulheres, principalmente, somos ensinadas desde pequenas que um dia vamos encontrar o amor da nossa vida e que esse será o auge, o momento de maior conquista da nossa existência. Já os homens, crescem sendo ensinados que eles serão os “príncipes salvadores”, os fortes, que precisam defender sua família.

As bases do ideal de alma gêmea estão situadas no livro “O Banquete” de Platão, em que ele narra o encontro de vários filósofos que neste banquete estariam discutindo o que seria o amor. Entre várias ideias, surge a do Andrógino (seres com quatro braços, quatro pernas e duas cabeças), que sendo considerados uma ameaça por Zeus são cortados ao meio e jogados no mundo à própria sorte sempre em busca da sua outra metade. Aí está a ideia de que temos uma metade perdida, uma alma gêmea.

Outro ponto importante para entendermos o dilema do amor romântico é compreender que o amor é uma construção histórico-social, é saber que nem sempre os casamentos foram realizados e vividos por amor. O amor no casamento começa a surgir na Idade Moderna, com o início da burguesia. Ao final da Idade Média, que compreende o período do século V ao XV, é que alguns movimentos começam a buscar uma aproximação entre amor e relacionamentos heterossexuais.

O chamado amor cortês teve seu início com homens trovadores, que usavam as trovas como um jogo de conquista direcionado para mulheres impossíveis, geralmente mulheres casadas. A cultura do amor, o cortejar, passa a ser um evento das cortes com a organização de festas promovidas por Leonor de Aquitânia. Ela promovia grandes banquetes onde se faziam trovas e ela ensinava modos de se portar à mesa para mulheres e homens afim de demostrar interesse uns aos outros. Assim, falar de amor e criar o hábito de cortejar e ser cortejada, passa aos poucos a se tornar cultural.

O amor romântico, com todas estas características mais conhecidas por nós, surge com a ascensão da burguesia e do capitalismo. Carregando em sua construção histórica o ideal grego de alma gêmea, os resquícios do amor cortês da Idade Média e, com o início da revolução industrial, servindo ao capitalismo para colocar a mulher burguesa dentro do espaço da casa. O amor romântico, advindo do modelo capitalista de se relacionar, tem como norma a monogamia e a privatização dos sujeitos nas relações.

Ainda hoje, apesar de várias mudanças, como a possibilidade das mulheres de classe média poderem escolher trabalhar fora, o amor romântico ainda é a base do amor. As mulheres, ainda, são ensinadas a colocar o amor como ponto principal de suas vidas. Uma grande parte das mulheres cresce imaginando o dia destinado a conhecer o grande e único amor de suas vidas, sonhando com o dia do pedido de casamento e colocando grande energia no cuidado emocional de marido e filhos. Já os homens, ainda seguem sendo ensinados que o trabalho e o sustento de uma futura família é onde eles têm que colocar suas forças. Casar é uma consequência da vida para eles.

É claro que amar e cuidar de quem amamos é bom e importante para que o relacionamento seja saudável e duradouro. Mas, o problema do ideal de amor romântico é que ele é desgastante para as mulheres. O dilema está neste amor que coloca a responsabilidade da vida a dois nas mãos das mulheres. Existe um trabalho invisível que envolve o amor na vida das mulheres e dar foco ao amor, sempre cuidando e vivendo para os outros, faz com elas se esqueçam de si mesmas. Quando esse tipo de amor, como o amor romântico, rouba a liberdade das mulheres de pensar um pouco em si, ele rouba uma grande parte de suas vidas. E esse é o maior problema do amor romântico.

Um amor predestinado nos faz perder a escolha e sem escolha não somos livres. Para além do amor destinado, está o amor da escolha. Escolhemos e somos escolhidas. Quando o casal constrói o amor, ambos são responsáveis por fazer este amor funcionar. É preciso tirar o peso da responsabilidade do amor da mão das mulheres e com ele o peso dos cuidados da casa, dos filhos, dos familiares que adoecem e dividir a vida e as responsabilidades com seus parceiros.

* Se quiser conhecer mais sobre a história do amor romântico, é só acessar: https://www.instagram.com/psicologa.saracampagnaro/channel/

Referências:

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução: Sérgio Milliet. 3a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. 2 vol.

CAMPAGNARO, Sara; EGGERT, Edla (Orientadora).

Mulheres e a Madresposa que há em Nós: A Educação para o Amor Romântico. Dissertação (Mestrado em Educação) PPGEdu, PUCRS. Porto alegre, 2019.

LAGARDE Y DE LOS RIOS, Marcela. Los cautiverios de lasmujeres: madresposas, monjas, putas, presas y locas. 4a ed. México: UNAM, 2005.

LINS, Regina Navarro. O livro do amor. Rio de Janeiro: BestSeller, 2013. 2 vol.

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