Andar com fé eu vou – Afina Menina – Um Portal para todas Nós

Andar com fé eu vou

por Suellen Alves

Me lembro a quantidade de amizade feita nas novenas da Igreja do bairro, era uma forma fácil de fazer novos amigos, sendo que acabávamos de nos mudar e no alto dos meus 6 anos, não conhecia muita gente!

A igreja habita o imaginário coletivo como um lugar ideal, tementes a deus e “boas pessoas” – principalmente aos olhos de uma criança que ainda não vê maldade no mundo. Não demorou muito para que eu conhecesse a comunidade toda da igreja.

Um pouco maior, ainda na época da alfabetização, comecei a estudar a bíblia, com uma tia que ia no Salão do Reino, das testemunhas de jeová- Saudosa Tia Lourdes, que nos deixou em 2016- no entanto me ensinou muita coisa, como por exemplo: Fazer crochê, tricô, estudar a bíblia e a ter medo de fantasma – “O diabo se disfarça para nos assustar, fantasmas não existem, filha” – Ufa, ainda bem- Pensava eu, assim tá tranquilo, fantasma não, o diabo sim! (Criança traumatizada Check).

A igreja católica é um prato cheio de feriados e eventos, o que nos mantém ocupados o ano todo, é coroação de Maria, domingo de Ramos, domingo de Páscoa, Natal, procissão, teatro, banda e afins, entretenimento puro para quem tá crescendo e mal percebe que discretamente esta sendo completamente absorvida por um moralismo que não deve ser questionado por um bom cristão.

Foi entre infância e adolescência que comecei a questionar o punitivismo da igreja, existe uma demonização latente nas figuras femininas representadas na Bíblia, começando por Eva, a mulher “originária”, foi ela que se deixou ser tentada pela maça e cometeu o pecado, levando o “coitadinho do pobre do Adão’’ a perderem o paraíso e por isso a gente se ferra até hoje, apesar de “Jesus ser crucificado e ressuscitado para nos livrar do pecado e tudo o mais” no mais, são várias as personagens bíblicas descritas como manipuladoras, ardilosas, enganadoras e afins, só gente boa!

Sempre achei Jesus um cara maneiríssimo, revolucionário e assim como eu: Não curtia burguês e nem hipocrisia! De qualquer forma, não me fazia feliz as exigências as mulheres descritas na palavra “Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher, do homem.” e “Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher, por causa do homem.” Sério mesmo deus, não está achando isso meio machista não? Provavelmente não tinha ninguém pra avisar naquela época, pois é, hoje, por muito menos a galera é cancelada, viu, sinto trazer más notícias.

A Sociedade muda, graças a deus.

De curiosa que sou, comecei a visitar outras igrejas além da minha, em maioria protestantes, sendo que a família paterna tem uma legião deles, conheci também religiões africanas e quanto mais eu conhecia, mas eu desconfiava dessa coisa da religião de tratar tudo como verdade absoluta, disfarçado de “em nome da fé”.

Chegou o fatídico momento da adolescência juntamente com a crisma- que não dei conta e abandonei na metade- levantar cedo no domingo, depois de trabalhar e estudar a semana inteira, passou a ser demais pra mim- Desculpa aí deus, não vou encarar, não me leve a mal. No mais entrava em uma fase rebelde braba e achava absolutamente todas as pessoas com 10 anos a mais que eu, chatas, ignorantes e fofoqueiras.

Anos mais tarde, eu e meu ex namorido, éramos bem jovens quando fomos morar fora do País, naquela famosa intenção de “Fazer dinheiro”, hoje eu costumo dizer que se não tivéssemos trazido um real desses dois anos fora, a maior riqueza foi todo o aprendizado e experimentação de culturas diferentes. O valor é imensurável, definitivamente impagável.

Lembro como se fosse hoje o dia que a grande ficha caiu, estávamos num ponto turístico em Londres, quando um grupo de japoneses se aproximou para fazer fotos e ao lado havia um grupo de indianos. Olhei pro “namorido” e disse:

_ “Paixão, já imaginou que se fossemos indianos, talvez a gente cultuasse as vaquinhas, é muito louco né… E ele respondeu: “Se fossemos japoneses seria o barrigudinho” Rimos e seguimos nosso caminho!

Não era um deboche, era uma percepção que vinha sendo construída ao longo dos anos. A segunda ficha foi quando na primeira faculdade que estudei, um desses professores Stand up comedy, genial – O Fred, professor de sociologia- começa sua aula nos falando sobre o livro mais antigo de história da humanidade como conhecemos, a Bíblia – Livro de história? – Chocada em Cristo, fiquei confesso. Nunca tinha percebido a bíblia como um livro de história, sempre foi um manual de conduta no meu entendimento até então.

Quando voltei pro Brasil, terminei a faculdade de publicidade e meu trabalho de conclusão de curso foi sobre a construção da polêmica no videoclipe. Pesquisar sobre polêmica, sendo orientada por uma das coordenadoras da Marcha das Vadias em Curitiba- Um beijo deusa Máira Nunes- procurem saber- Foi uma virada de chave na minha vida. E novamente lá estava eu batendo de frente com a religião, numa época que eu já me sentia membra vitalícia do clube das feministas e já havia me afastado completamente da igreja- foi esclarecedor.

Apesar de estar ciente que os estudos teóricos sobre feminismo, patriarcado e afins são uma longa caminhada- Cada vez mais eu me sentia orgulhosa de pertencer a esse movimento político, que me elucidava tanta coisa sobre ser mulher na sociedade.

Cada conquista, cada história da luta nas mulheres que vieram antes de nós, me dava um quentinho no coração e cada vez mais eu compreendia o que de fato significava Sociedade patriarcal e da onde eu alimentava a onça que mora no meu peito.

O feminismo me acolheu e aos poucos foi tirando o véu da cegueira dos meus olhos. Não é fácil descontruir tudo que você acredita, nunca foi fácil. Continua não sendo. Meu pai costumava brincar que eu não era ateia, era à toa e fez sentido pra mim.

Deixei de ser temente a deus para enxergar a divindade em mim e no mundo, deixei de temer a um Deus homem, que pune e castiga, para ter fé num deus que é natureza ou melhor, numa deusa que pariu o mundo, que me explica as sutilezas e as grandezas de estar vivo e não me impede de ser quem eu sou.

Passei a temer o machismo em mim e nos outros, porque diferente do que minha tia Lourdes me ensinou, o inferno sempre foi aqui para grande maioria das mulheres. O diabo é o machismo, o capitalismo e a desigualdade social são servos, não tem depois, o inferno é agora, o ceú também, o amor ta aí para provar. Mas o amor é assunto para outro dia!

Buscar conhecimento acerta da multiplicidade de religiões, me abriu um universo de construções sociais que estavam arraigadas tão profundamente em mim que eu não me atrevia a questionar.

Agora, no meio de uma pandemia, onde atingimos hoje o maior número de mortes em 24 horas eu te pergunto: Você acha que morreu porque Deus quis? Não, não acredito que deus queira tamanha crueldade, não acredito nesse deus punitivista, não acredito que é castigo de nada, acredito num deus piedoso, acredito num deus que habita em nós e em todos os seres vivos desse universo gigantesco e grandioso, não acredito nesse deus que prioriza uma igreja ou outra, frequentei igreja demais pra chegar nesta conclusão.

Mas na fé eu acredito, tenho fé que um dia a humanidade perceba todas as amarras que nos ensinaram, como nos controlam e manipulam enquanto sociedade através do medo. Tenho fé, que esses milionários que fazem lavagem cerebral em gente ingênua e pura de coração deixem de ser nossos diabos. Que as pessoas despertem e percebam que política e religião não se misturam, mas se debate e preconceito religioso se combate.

Agora fé, fé eu tenha muita, fé nunca me faltou, porque o feminismo me ensinou que somos deusas, que parimos vida e na vida eu acredito, na vida eu tenho muita fé, mesmo com as promessas para após da morte querendo negociar minhas atitudes, minha fé é na vida e isso sim é sagrado!

Por isso eu acordo todos os dias desejando ser a força da natureza que eu nasci pra ser, mesmo que isso implique em ser combativa como a fúria de uma furação, leve como o bater de asas de uma borboleta ou ser imensa e iluminada como o céu de um nascer do sol, porque isso sim, é ser divino!

Importante
Os textos de nossos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Portal Afina Menina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *