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A Masculinidade do BBB

por Chris Xavier

A atual configuração masculina do Big Brother Brasil possui características peculiares em termos de protótipo da representatividade de gênero e masculinidade brasileira.

O trio Caio, Rodolfo e Arthur apresentam em comum a representação do padrão heteronormativo que cultiva amizade, respeito e admiração por outro hetero específico com quem se identifica e ficam à vontade para trocar confidências, segredos e selam um pacto de fidelidade entre si, sem qualquer necessidade prévia de um contrato verbal, sendo o fenômeno um paradigma. Constituem um exemplo do modelo masculino que cresceu assimilando padrões estruturais e normativos pré-estabelecidos em uma sociedade machista e preconceituosa. Portanto, são modelos masculinos que seguem a expectativa do imaginário coletivo da maioria das pessoas. São heteros brancos fisicamente másculos (o que não significa exclusivamente musculoso) com comportamentos, pensamentos e ideologias correspondentes ao universo do varão viril, “como deve ser”. Portanto, são aceitos e acolhidos ao que se referem suas ações e atitudes dentro do escopo da heteronormatividade vigente.

É comum elegerem um BF (best friend) hetero para dar vazão e estabelecer trocas heteroafetivas de amor, carinho, cumplicidade e afeto, que para ser socialmente aprovado e até servir de um lindo exemplo, necessita ser camuflado pela característica de parceria, amizade e vínculo fraterno ou brotheragem. Uma vez isso posto com clareza, parafraseando nosso saudoso síndico Tim Maia, ‘vale tudo, só não vale homem com homem (sexo)’. Então, o que resta dessa relação para as mulheres? Em primeiro lugar o sexo, que é justamente o limite tênue da fronteira da outra relação. No mais, agem e atuam conforme forças arquetípicas do universo masculino mescladas com padrões socioculturais que será basicamente evidenciado por comportamentos e atitudes paternalistas, protetivas e frequentemente passando por um modelo orientador, daquele que carrega o saber, representando o portador do conhecimento da vida real, dura e concreta, o arauto da verdade do mundo concreto.

Entretanto, há uma distinção aparente nessa parte do núcleo masculino hetero, pois de um lado temos aquele estereótipo branco ‘macho raiz do interior’, cowboy rústico, com requinte mais abrutalhado, preconceituoso e orgulhoso de sua simplicidade, que acredita carregar consigo por conta de sua origem. Do outro lado, tem o boy mais moderno, que empreende esforço para parecer cosmopolita e evita dar na cara o preconceito estrutural e, até certo ponto lida bem com a pluralidade, diversidade e questões de identidade e gênero, desde que não se aprofunde tanto em debates sobre as questões.

Na outra ponta, temos dois representantes das minorias excluídas da sociedade: negro, nordestino e gay. Eles divertem o público, trazendo leveza, alegria, espontaneidade, destempero e exagero. Nesse caso, a diversão serve como contraponto ao alívio ou uma espécie de anestésico temporário da sustentação desse papel estruturante heteronormativo que consome a todos e todas em nossa sociedade. A diversão aqui garante a manutenção do pacto heterosocial colocando as minorias como parte burlesca, servindo de paródia, imitações, piadas e chistes, servindo de catarse libertadora da agressividade hetero reprimida.

Por fim, no meio temos a figura andrógena de Fiuk, mais fluída em consonância com transformações identitárias ocorridas na sociedade. Traz em si uma incógnita para o mundo hetero, causando um misto de amor e ódio, pois carrega sensibilidade, fragilidade, polaridade feminina e masculina; mas, ao mesmo tempo, esse traço de incerteza posta pelo mundo binário frágil causa também incômodo, confusão e repúdio, pois a ideologia hetero necessita de respostas.

Em tempos de polaridade política, negacionismo, intolerância, preconceito, racismo e descredibilidade da ciência, olhar o BBB pode ser um passatempo interessante, sobretudo se observarmos ali estruturas de uma ‘nanosociedade’ que refletem imagens de nós mesmos e sirvam não como mero fetiche ou locus projetivo de nossas defesas psíquicas, mas como ponto de reflexão para cada núcleo familiar repensar sua própria estrutura de convivência.

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