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A vaca reflexiva

por Suellen Alves

Toda vez que começo um texto, a primeira coisa que faço é escrever um título. Funciona para mim. Parece uma tentativa de norte, mas hoje pensando e acreditando que caminho também é destino e eu não faço ideia para onde estou indo, venho assim, free style, falar sobre o nada e o tudo que tá aqui dentro, barulhento.

Não dá para começar pelo título. Tem tanto assunto para gente conversar, mas estamos assim, absorvidos pela pandemia ad infinitum, parecendo um trem desgovernado – infelizmente- com proporções continentais, se eu for começar pelo título, seria: Socorro, Deus!

Dia 14 de março, fez um ano que eu estou quarenteRnada (com exceção das fugas à trabalho e a caminhada nossa de cada dia, pois cuidar do coração é preciso #saudadesaglomeração) e sinceramente, de uns tempos para cá as palavras me fogem.

As lágrimas pediram passagem nas últimas semanas, meus olhos tem estado seco ultimamente, parece que todos os motivos para chorar no fim nem são meus, mas hoje, me permite chorar. Chorar a humanidade mesmo, sentar no chão e chorar. Chorar de ficar com o nariz “ranhento” olhando para a parede, sabe? Como lindamente li da Renata Correa “O tempo do corpo não é o tempo da cabeça”. E embora meu corpo esteja implorando por festa, risada, abraço, aconchego, tem alguma coisa na minha cabeça querendo deitar em posição fetal e só levantar depois das eleições de 2022 (entendedores, entenderão!).

Para a minha surpresa, eu que não sou de me acolher, acolhi a tristeza, acolhi o aperto no peito. Acolhi depois do puxão de orelha da amiga canceriana que deu positivo para Covid e eu dei sermão “_ onde já se viu falar com fulana sem máscara, ela vem da rua!” – O fato é que a gente raramente sabe da onde vem, nem a covid e nem a tristeza, só sabemos os sintomas, feito criança pequena exige atenção. Você pode ignorar, tentar disfarçar, dar o celular para distrair, mas uma hora ou outra vai precisar dar colo, não tem saída, sermão também, a gente se educa coletivamente, enquanto sociedade, não dá para negar- porem negacionista de tudo neste país não tem faltado- da vacina à ciência, passando pela pandemia e se a terra é realmente redonda- o que sobra mesmo é a vergonha alheia.

Estes tempos ouvi que a raiva é uma tristeza camuflada. Entendi. Porém, sem energia até para sentir raiva, parece uma anestesia coletiva. Evito muito dar palco para maluco e para a tristeza, me ocupo o suficiente para não ter tempo de pensar na situação que estamos, mesmo uns estando de bote salva-vidas e outros nadando e levando caldo, é uma barra pesada para segurar. Umas mais! Eu, que vivi longe da minha família por muito tempo, dona do meu “narizinho” como dizia minha mãe, me vejo como uma ilha, rodeada por família por todos os lados. Das coisas da pandemia, estar com os meus me pareceu a coisa mais sensata a se fazer. Mas que fique claro, nunca entendi muito de sensatez.

Sou péssima com códigos de conduta.

Meu pai é um famoso frasista (Ele tem bar, famoso na vila e na família, logicamente…) e nos criou dizendo:

_ É, não adianta chorar pelo leite derramado, o importante é não perder a vaca!  Sempre começa parecendo assunto sério, termina em risada.

Quando eu vejo o leite derramado pelas escolhas ou insistências da minha própria teimosia, lembro sempre que não posso perder a vaca- no caso a vaca sou eu.

Não posso me perder, não posso perder a vontade de escrever, de fazer cinema e acreditar na cultura rica do meu país. De construir uma carreira, de existir nesse mundo caótico cercada por liberais conservadores que flertam com o fascismo e acham super coerente defender “O Sul é meu país” e que imagina: O Brasil não é racista! A vontade de chorar vem sabe, mas é engolida pela vontade de esmagar alguns pescocinhos por aí, eu to sempre flertando com comunicação não violenta e comunicação muito violenta- uma aprendiz de slakline sobre montanhas.

A verdade é que eu não posso desistir de mim, porque afinal, eu preciso da vaca. Parece que a vida está me dando aquele tempo, que eu achava que precisava, para me preparar para alguma coisa que nunca entendi direito o que é, mas eu não to sabendo aproveitar, sabe como? Lembra aquela frase não sei de quem: Sempre que encontramos a resposta, vem a vida e muda todas as perguntas. Meu lado emotivo é inacreditavelmente cafona, precisa ver, vejo o pôr do sol e tenho vontade de cantar: “Eu te amo e vou gritar para todo mundo ouvir” essa coisa que eu tenho com o céu e me emociona, me apegar as pequenas sutilezas tem sido fundamental.

Mas voltando pro norte desse texto, se é que tem um- A vaca é tudo que eu tenho- a vaca é pensando friamente e com resiliência a única coisa que é verdadeiramente minha e ainda assim, as vezes eu dou a vaca pros outros, deixo os outros machucarem a vaca, sou terrivelmente atingida por situações que de nada tem a ver com vaca.

Não sei vocês, mas ando ressabiada da vaca ir pro brejo, se estiver ao meu alcance o que fazer com a vaca, eu prefiro a vaca atolada (aquele prato), do samba gostoso da Lapa – que atualizando informações soube que fechou, não que não seja óbvio, está tudo fechado para balanço – do que a vaca atolada em uma montanha de problemas, uns inclusive, que eu mesma criei. Acho que poderíamos chamar esse texto de: A vaca reflexiva. Faz sentido para você?

Importante
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