Café da manhã, almoço e jantar – Afina Menina

Café da manhã, almoço e jantar

por Patricia Pavloski

Uma família reunida ao redor da mesa é parte de uma oração universal diária

Para ler ouvindo: Por você – Frejat

Sempre fui adepta da rotina com cronograma e método, isso muito antes de ter um filho. Lá nos primórdios, honestamente não foi bem por gosto que entrei nessa, mas sim extrema necessidade. Como cresci numa casa comandada por uma mulher e mãe solo que passava o dia todo fora trabalhando sem deixar uma rede de apoio para trás, era fundamental que tivéssemos uma espécie de coreografia meticulosamente ensaiada fazendo o dia a dia dar certo. Por um lado, para que eu me mantivesse saudável e em segurança. Por outro, para ela ter o mínimo de tranquilidade possível deixando uma criança sozinha. Assim, estabelecemos – eu e minha mãe – uma sólida relação de confiança: até na adolescência, quando dei meus pulos, considerava fora de questão causar qualquer tipo de preocupação. Não parecia justo!

A maturidade precoce nascida do contexto forçadamente estabelecido me fez enxergar desde muito nova a importância de ser disciplinada. Ao mesmo tempo, uma menina manhosa morria de saudades da mãe a ponto de rezar para que ela, sei lá, até adoecesse e passasse uma terça-feira chuvosa sem sair pela porta. No fim, sempre chegava a hora de ver a silhueta materna com o guarda-chuva na mão se afastando, o tchau de despedida na janela repetidamente gesticulado até o ônibus desaparecer na próxima esquina. Nas cerca de nove horas seguintes, algum tipo de fio invisível nos conectava e impulsionava. Hoje, só nós duas sabemos o quanto essa fase nos transformou para sempre e ambas carregam consigo a força, a dor e o aprendizado daquela época.

Levando em conta tudo que foi dito até aqui, só consigo pensar no quanto as refeições em família e ao redor da mesa me fizeram falta no auge dos 10 anos. Algo que só acontecia aos finais de semana – e olhe lá, pois o emprego que garantia o sustento dava folga apenas aos domingos, sendo ainda só uns dois deles por mês. O café da manhã era em frente à TV assistindo desenho, o almoço cuidadosamente esquentado e consumido com o prato no colo e o jantar algum lanchinho saboreado com os olhos pesados de sono, pálpebras que mal conseguiam se manter abertas até que finalmente se ouvisse o barulho da chave na fechadura.

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Apesar de tudo, me sinto privilegiada por nunca ter presenciado violência ou ter sido vítima dela. Por mais desafiador que o cotidiano fosse, uma aura de leveza pairava no ar como alento e reinava absoluta sob a ótica da dificuldade. Nunca deixamos de lado o riso solto e a vontade de estarmos juntas.  Creio que a certeza de que se lutava bravamente para contrariar as piores probabilidades nos jogava para frente com tanta gana que, às vezes, tinha a impressão que nada no mundo poderia nos deter. Arrisco dizer que realmente não deteve.

Todos esses recortes de acontecimentos, que permearam boa parte da minha trajetória até quase me tornar adulta, com certeza influenciaram minhas decisões ao me tornar mãe. Não tinha como ser diferente, ninguém passa imune a tudo isso. Junto com uma coragem sem precedentes veio também a vontade de poder fazer diferente e melhor. De todo modo é onde estou, no front, encarando o que vier como já vi ser feito mesmo que em outras circunstâncias. Além do amor incondicional o cansaço é um dos sentimentos que os mais variados tipos de mães compartilham. Porém, poder olhar a peripécia do menino que nem imagina o que seria acordar e não me ver é igualmente cansativo, só que sem a parte da aflição – o que como filha senti na pele e, anos mais tarde, ouvi em desabafo.

Não por acaso, engravidei e decretei: maternidade será prioridade no singular. Obviamente, tive essa opção. Diferentemente da minha infância, meu menino tem um baita pai… e eu, um parceirasso caminhando aqui do lado. De qualquer maneira, não deixou de ser uma escolha que envolveu incontáveis renúncias – sou repetitiva nesse ponto porque faz parte da espinha dorsal de quem escolhe, como eu, ficar em casa cuidando da cria. Em meio a altos e baixos, racionalizo e aceito com genuína resiliência tudo que vai emergindo dessa missão arduamente maravilhosa. Com o adendo de podermos cozinhar juntos, conversar enquanto faço qualquer coisa, caminhar de mãozinha dada rumo à escola (antes da pandemia, né), ver acordar, colocar para dormir, fazer pelo menos as três refeições principais na companhia um do outro. A infância passa voando!

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Olhando agora para meu filho muitas vezes me imagino no lugar dele, balançando as pernas com pés que ainda não tocam o chão esperando a conchada de feijão quentinho pousar no arroz pelas mãos de quem eu mais admiro no mundo: as da minha mãe. Juntas, criamos um pacto indissolúvel. Algo que levarei adiante e que me acompanhará até o findar dos dias. Um legado imaterial que envolve diálogo, verdade e, especialmente, entrega. Seja longe ou perto, maternar para mim implica em sacrifícios. Para quem não está minimamente disposta a isso, definitivamente não aconselharia. O coração manda uma informação que o cérebro precisa racionalizar e vice-versa. No entanto, na linha de frente é mais uma mera quinta-feira com seu café da manhã, almoço e jantar. De preferência, com mesa posta, tim-tim, saúde e vida longa.

 Até a próxima!

 

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