A IA não mora na Califórnia (e nunca morou)

Por que a narrativa do “império da IA” envelheceu antes de virar consenso

Durante algum tempo, fez sentido imaginar a inteligência artificial como um poder centralizado. Grandes data centers, nomes recorrentes, CEOs carismáticos, manchetes apocalípticas. Era confortável apontar um “centro do mundo” — quase sempre na Califórnia — e dali derivar todo o resto.

O problema é que essa fotografia já está desatualizada.

E insistir nela hoje diz mais sobre quem analisa do que sobre a própria IA.


Centralização de capital não é centralização de inteligência

Existe, sim, concentração em infraestrutura pesada: chips, energia, nuvem, escala industrial. Isso é fato — e não é exclusividade da IA. Sempre foi assim com telecomunicações, petróleo, siderurgia, internet.

Mas confundir isso com centralização de modelos, ideias e capacidade técnica é um erro conceitual.

Nunca houve tantos modelos competitivos, eficientes e — em muitos casos — superiores em tarefas específicas, surgindo fora do eixo tradicional do Vale do Silício.

A IA não está presa a um castelo. Ela está espalhada em oficinas.


O ecossistema que não cabe numa metáfora imperial

Hoje, o avanço da IA acontece em múltiplos polos, com abordagens distintas:

  • Modelos especializados, mais leves e eficientes

  • Comunidades open-source que iteram em ritmo impossível para estruturas corporativas tradicionais

  • Pesquisa aplicada profundamente integrada à indústria real (manufatura, robótica, logística, saúde)

A Ásia, em especial, não é “usuária” nem “satélite”. É berço ativo de inovação, com estratégias próprias, menos dependentes de hype e mais focadas em desempenho e eficiência.

Chamar isso de “império” é ignorar a dinâmica real: fragmentação criativa, não dominação unilateral.


O risco de errar o diagnóstico

Narrativas excessivamente moralizadas — heróis, vilões, impérios, colonizadores — simplificam demais um fenômeno técnico, econômico e social complexo.

Quando erramos o diagnóstico:

  • regulamos mal,

  • tememos o que deveríamos compreender,

  • e atrasamos discussões realmente importantes: governança, interoperabilidade, uso responsável, soberania tecnológica.

A IA não é uma entidade autônoma nem um projeto messiânico.
É infraestrutura cognitiva construída por pessoas, empresas, universidades e comunidades — com interesses diversos e, muitas vezes, conflitantes.


O futuro não será imperial. Será plural.

A inteligência artificial caminha para o mesmo destino da internet:

  • múltiplos provedores,

  • múltiplos modelos,

  • múltiplas filosofias técnicas.

O verdadeiro poder não estará em “controlar a IA”, mas em saber integrá-la, questioná-la e usá-la com critério.

Talvez o maior risco não seja um império invisível.
Talvez seja insistir em mapas antigos para navegar um território que já mudou.

E, como toda boa tecnologia, a IA não pertence a um lugar.
Pertence a quem sabe trabalhar com ela — sem medo, sem idolatria e sem slogans fáceis.

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar

Comece a digitar e pressione o Enter para buscar